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DESAFIOS SOB UM SOL ESCALDANTE

 

DESAFIOS SOB UM SOL ESCALDANTE


As rotinas mantêm-se inalteráveis.
Todos os dias me ausento de casa, quando a hora sexta está perto, debaixo dum sol escaldante, em direcção à fonte de Jacó para me abastecer de água.
É o único horário que me permite sair sem ser atingida pelo fogo cruzado das injúrias e blasfémias que este povo insolente, provocador e hipócrita me dispara.
Um povo que, encabeçado por desprezíveis auto-denominados juízes, decreta as suas sentenças, diante das rés deliberadamente silenciadas.
Nunca ninguém se atreveu a perguntar-me se precisava de auxílio. Nunca ninguém me estendeu a mão quando caída em desgraça. Nunca ninguém se preocupou em saber quais os motivos do meu infortúnio. Nunca ninguém quis saber se era justo ou injusto este meu penar, nunca! Mas sempre estiveram, e estão, prontos a direccionar os seus dedos acusadores e as suas línguas afiadas contra mim.
Julgam-me como se me conhecessem, mas desconhecem-me por completo, a mim e à minha história de vida. E eu também não estou interessada em divulgá-la mas irrita-me profundamente que sejam juízes de uma causa alheia.
E tudo porquê? Porque sou mulher!
Não lhes importa os acontecimentos que levam um casamento a ruir, não lhes interessa saber o que correu mal, as origens de semelhante desfecho nem quem foi o primeiro a quebrar os votos do matrimónio. Não, isso não lhes interessa, não é importante, porque as culpas recaem sempre sobre a mesma vítima, a mulher!
Como tal, e relativamente ao meu caso, a culpa foi, e continuará a ser, minha e ponto final.
É assim que se tratam as mulheres de Samaria… Nascemos com o destino traçado, nascemos para estarmos sujeitas às vontades e aos quereres do sexo oposto. Os homens querem, podem, mandam e comandam enquanto nós, as mulheres, só temos de lhes obedecer, calando-nos, subjugando-nos, anulando-nos e ainda devemos dar muitas graças a Jeová pelo marido que temos. Se ele é bom ou mau, não importa.
Mas eu recuso-me a aceitar esta prepotência tirânica. Recuso-me a deixar-me dominar por tamanha injustiça. Não é isto que quero e espero de um marido, de um companheiro de vida. Quando me entrego é por completo, quando me dou é por inteira. Foi assim que agi em cada enlace. Busquei em todos eles, desesperadamente, a felicidade e entreguei-me sem reservas. Mas o retorno não foi o esperado. Fui desprezada, humilhada, maltratada e… violentada.
Destroçada, virei a mesa por cinco vezes! Fiz aquilo que muitas mulheres querem e sentem vontade de fazer, mas coitadas… se o fizeram receberão o mesmo tratamento que eu. É por isso que se acobardam e anulam, preferindo sofrer em silêncio.
Mas eu não compactuo com violência nem maus tratos, recuso-me a ser usada como um tapete, ou um objecto. Se o Senhor dos meus pais Isaque e Jacob exigisse de nós essa submissão não nos teria dado boca, coração, inteligência, sentimentos…
Porque requerem os homens de nós, um direito que não lhe é devido? Porquê? Porque a sociedade está dominada por eles e pelas leis que eles próprios elaboram em seu benefício. E sendo assim está tudo dito!
Mas eu não me conformo com isso… prefiro ser apontada na rua com hostilidade do que ser olhada com piedade. Não suporto que tenham pena de mim, não o admito se quer!
Só há uma coisa capaz de me dominar, só uma coisa pode refrear estes meus ímpetos e transformar o meu carácter, só uma única, o amor… só o amor e nada mais.
Não anulo a minha cota parte de culpa em todos estes fracassos. Fui ingénua e tonta. Caí na cilada de um amor fingido, escorreguei diante de elogios, galanteios e palavras doces. Paguei caro esse meu erro. Duplamente caro. Procurava em cada companheiro, um amigo que não achei. O sinónimo de amigo é tão extenso e tão imenso… É lamentável que muito poucos o conheçam. Mas nenhum dos meus anteriores infortúnios me fez perder o amor-próprio, a dignidade ou a vontade ser feliz.
Sofro por viver paredes meias com um povo que se diz religioso, temente a Deus mas não manifesta o amor pelo próximo, em vez disso difama-o. Um povo que bate com a mão no peito e se diz ser servo do Deus Altíssimo, mas na realidade tudo não passa de um disfarce para omitir a podridão que lhes vai na alma. Falsas paredes caiadas de branco. Podem acusar-me de mundana ou adúltera mas jamais de dissimulada ou maliciosa.
Tudo fiz com o objectivo de ser abençoada, não o consegui, paciência.
Sob o sol escaldante na minha cabeça, apesar do cântaro, estes pensamentos pesam e tornam mais dolorosa a caminhada; nunca tenho outros quando me dirijo ao poço.
Mas… que fará a esta hora um homem assentado junto ao poço? Ainda para mais… judeu.
Sim, é judeu, as vestes e o semblante não deixam dúvidas.
Hum… o melhor é dar seguimento ao que me trouxe aqui e voltar rapidamente casa. Não existe comunicação entre judeus e samaritanos portanto…
– Dá-me de beber.
Como ousa ele dirigir-me a palavra? Deve estar sequioso, e com o calor que se sente a esta hora não me admira, ainda assim…
– Perdão? Como sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?
– Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.
Que diz ele? Dar-me-ia água viva? Mas como?
– Senhor, tu não tens com que tirar a água e o poço é fundo, onde pois tens a água viva para me dar? És tu maior que o nosso Pai Jacó, que nos deu o poço, de onde também bebeu ele, seus filhos e seu gado?
É um judeu estranho que fala de forma estranha mas não me parece que esteja a ironizar quando fala comigo. Há algo nele que me atrai e transmite confiança…
– Qualquer que beber desta água tornará a ter sede. Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.
Se for verdade o que me diz, acabaria de vez com esta rotina diária de vir ao poço buscar água. Terminaria este tormento.
– Senhor, dá-me dessa água, para que não tenha mais sede, e não necessite de vir mais aqui tirá-la.
– Vai, chama o teu marido, e vem cá.
O meu marido? Mas porque tenho de chamar agora o meu marido? Ah já sei… sou mulher… o eterno problema.
– Não tenho marido – agora vai dizer-me que não tenho direito a essa água.
– Disseste bem: Não tenho marido; porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido, falaste a verdade.
Eu sempre falo a verdade mas, como pode ele saber que já tive cinco maridos e que o companheiro que tenho presentemente não é meu?
– Senhor, vejo que és profeta – só um profeta possui tamanho conhecimento. Vou aproveitar para o questionar sobre o que os nossos pais nos ensinaram, e que tanto os judeus contestam. Nunca tive a oportunidade de esclarecer as minhas dúvidas, limitei-me a aceitar o que me diziam.
– Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis ao Pai. Vós adorais o que não sabeis: nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é em que os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem…
Quanta sabedoria… reconheço que sabe bem do que fala.
O que vejo a minha volta? Muita religiosidade, muita tradição, muitos usos e costumes, mas a verdadeira fé em Deus e a verdadeira adoração onde estão?
– Senhor, eu sei que o Messias, chamado de Cristo, vem, e quando vier irá anunciar-nos e esclarecer-nos acerca tudo – sempre foi essa a minha certeza.
– Eu o sou, eu que falo contigo.
Estou atónita, não pode ser. O Messias que todos aguardamos está agora diante de mim?
– Oh meu Senhor, a minha alma está gozosa e maravilhada.
A sua voz propaga em mim uma acalmia imensa. Dele emanam paz, segurança, conforto e alegria. É inexplicável mas o meu coração está inundado pela mais pura felicidade! Uma felicidade sem igual.
Vêm homens em direcção ao poço, não sei quem são, suponho que sejam seus amigos. A excitação invade-me e impede-me de fazer perguntas. Só penso em correr até Sicar e contar a todos quem encontrei.
Largo o cântaro e uma pressa diferente em regressar à cidade, apossa-se de mim. Recordo-me agora que não me despedi, nem lhe agradeci, pelos menos verbalmente não me lembro de o ter feito mas os meus olhos, sim os meus olhos, devem ter-lhe expressado toda a minha gratidão.
A minha ansiedade é tanta que o caminho parece não ter mais fim. E os pensamentos de há pouco… aqueles que emergiram na minha mente perderam todo o valor. Cinco casamentos falhados… como me pesam agora, Santo Deus.
Talvez eu devesse ter me empenhado mais. Talvez eu não devesse ter sido tão afoita na defesa daquilo que pensei serem os meus direitos. Talvez eu pudesse ter me silenciado e assim evitado algumas situações… talvez.
Oh meu Deus agora é tarde, e já não posso remediar o passado. Tenho padecido muito a conta das decisões levianas que tomei. Em relação ao presente tudo é diferente, Há muito que posso, preciso e vou fazer. Preciso colocar a minha vida em ordem. Preciso definir a minha situação actual, preciso…
Mas antes, antes de tudo vou relatar ao meu povo o encontro que tive junto ao poço. Vou contar-lhes que encontrei um homem especial, que me disse tudo quanto tenho feito.
Sei que de início não irão acreditar em mim, irão questionar-me e por em causa tudo o lhes digo, mas a verdade é que eu encontrei a fonte.
Encontrei a Cristo!


Florbela Ribeiro®

http://flor-docearoma.blogspot.com/

 

O auto-retrato

O auto-retrato

Jéssica repousava a excessiva magreza do seu corpo cansado e doente. Na cama adornava a silhueta esguia com uma nobre e delicada colcha de linho, bordada à mão. Mas permitiu que o seu olhar baço pela dor se ausentasse dali.
Através da janela entreaberta, entrava uma brisa fresca, que fazia esvoaçar com subtil leveza a brancura da cortina de organdi.
Havia um sinal de que o calor intenso que se fizera sentir ao longo de quase todo o dia, começava finalmente a dar tréguas.
Em frente, e por cima da cómoda de carvalho maciço, o auto-retrato, pintado por um conceituado artista israelita, observava-a atentamente, parecia perceber quais os caminhos por onde vagueava o pensamento.
Percorria mentalmente as ruas e os becos, tantas e tantas vezes calcorreadas, para levar auxílio, cuidado ou simplesmente afectos.
Cruzaram-se com ela inúmeras histórias de vidas, onde a tragédia, sem ser convidada, batera à porta. Histórias que se mantinham bem presentes na sua memória, ao ponto de sentir a miscelânea de aromas provenientes daqueles caminhos, invadirem-lhe o quarto…
– Que saudade… – murmurou.
As gotículas que lhe desciam suavemente pelo rosto, não eram apenas saudade. Havia nelas muito de desespero, de desânimo, de amargura, e revolta, e toda essa mistura resultou numa rendição total.
O optimismo era uma das muitas qualidades na personalidade de Jéssica, mas nas circunstâncias actuais, tal era de todo impossível.
O destino desferira-lhe um duro golpe, ao traí-la daquela maneira.
Jéssica sabia que o seu fim se aproximava, e não havia nada, nem ninguém que a pudesse salvar.
Recuar no tempo, remexer nas memórias, era a única maneira de escapar à dura realidade. Era uma fuga momentânea, mas que amaciava, tal como um bálsamo, os golpes profundos, desferidos pela fatalidade.
Foi notório o brilho que por breves instantes lhe iluminou o rosto, ao recordar o apelido pelo qual o seu pai era conhecido na cidade:
– “ O VI-SI-O-NÁ-RIO” – soletrou baixinho.
Fora assim “baptizado”, depois de muito insistir na “loucura” de dar à sua filha Jéssica, a mesma educação que recebia todo e qualquer filho varão.
Uma opinião que foi prontamente contestada e encarada como absurda, além de uma verdadeira afronta para a cultura e a mentalidade da época.
Mas seu pai, possuidor de uma visão que via o futuro, asseverava que os rapazes e as raparigas deveriam ter direitos iguais, no acesso aos estudos.
– A mulher deve ser instruída, quanto mais não seja, para criar um lar mais acolhedor e atractivo para o seu marido e filhos. Isso não irá afectar em nada os seus afazeres domésticos, bem pelo contrário, irá valoriza-lo. Pensem nisso! – argumentava ele a plenos pulmões.
Era um dos homens mais respeitados da cidade, mas o seu prestígio não derivava da posição socioeconómica que ocupava, e sim da forma atenciosa e afável com que tratava toda a gente.
É claro que a juntar a este rol de qualidades, estava também o geniozinho com que defendia as suas convicções. E não abdicava delas a favor de ninguém.
– Nem a favor do Imperador – afirmou ele certo dia com ironia.
Ao ouvir a argumentação cerrada, e por vezes irada dos conservadores, estava sozinho, mas mesmo assim não desistiu.
– Mas que raio… – vociferou ele, no último debate – a filha é minha, portanto sou eu quem decide como é que ela será educada e ponto final!
Não conseguiu alterar as regras do sistema de educação, em benefício das raparigas, mas jamais permitiria que alguém se intrometesse na educação da sua filha.
A sua esposa Maria, Avi o seu primogénito e a sua filha Jéssica, eram os seus únicos apoiantes, e isso bastava-lhe.
O orgulho que aqueles três pares de olhos evidenciavam por ele, dava-lhe a força necessária para avançar.
E foi essa perseverança paterna que permitiu que Jéssica recebesse um ensino completo.
Com o passar dos anos Jéssica transformou-se numa mulher culta, inteligente porem sóbria. Mas tal como o seu pai, era determinada quanto às suas convicções e nem a timidez característica da sua personalidade a fazia recuar.
Jéssica possuía uma alma extremamente bondosa, que a impedia de ficar de braços cruzados diante dos problemas e das carências do povo.
Era movida pela compaixão, nutria um carinho especial tanto para com as crianças, como para com os doentes, os pobres ou necessitados.
Sofria ao ver uma mãe que agonizava na dor de perder um filho. Revoltava-se com o desprezo e o abandono que eram infligidos aos cidadãos mais vulneráveis. E com o regime governamental, onde as leis aplicadas eram cegas, imparciais e desumanas diante do sofrimento do povo.
A sua faceta solidária enchia de orgulho todos os membros da família e, rapidamente, tornou-se numa defensora acérrima dos mais carenciados.
Onde houvesse algum tipo de carência, aí estava Jéssica.
Prestativa e afável, auxiliava tudo e todos, o quanto podia, e sempre que a situação a transcendia buscava ajudas externas, sem poupar nem medir esforços. Deparou-se inúmeras vezes com situações delicadas e problemáticas, como crianças que perdiam acidentalmente os seus pais, ou que eram largadas ao abandonado, ou outras que eram maltratadas pelos próprios familiares.
Nas duas primeiras situações, e sempre que estas sucediam, ela não descansava até lhes arranjar um novo lar. Elegia casais impossibilitados de ter filhos, ou lares onde a desgraça se tivesse instalado, ao levar-lhes um filho.
Era uma maneira de atenuar simultaneamente dois sofrimentos de uma vez. E a garantia de que as crianças seriam mais facilmente acolhidas e bem cuidadas, era maior.
Cuidava igualmente dos idosos, prestava-lhes os cuidados básicos essenciais, principalmente quando se encontravam acamados. Para os mais activos e ainda saudáveis arranjava algumas actividades de modo a incorporá-los na sociedade. Uma maneira simpática e inteligente de fazer com que se sentissem úteis.
Também angariava bens de primeira necessidade, que distribuía pelos mais pobres e carentes. Recorria aos ilustres senhores da sociedade, mas contava com a preciosa ajuda da sua mãe. Era ela quem confeccionava os deliciosos almoços ou lanches, onde o requinte e sofisticação marcavam presença.
Era nesses encontros que Jéssica aplicava todo o seu potencial argumentativo com uma eloquência oratória de fazer inveja. Descrevia o sofrimento das histórias de vida com tanta clareza e pormenor, que os convidados ficavam com a sensação de estar diante delas.
Agora todos podiam finalmente comprovar que o seu pai tivera razão. A educação que Jéssica recebeu não a desvirtuou em nada, pelo contrário.
Obviamente que os mais tradicionalistas e conservadores não admitiam publicamente o facto de terem errado nas suas alegações, mas faziam-no em privado. Não foram poucas as vezes que, com palmadinhas nas costas, o felicitaram, pela preciosidade que tinha em casa.
O empenho e o dinamismo que Jéssica impunha em defesa das causas sociais, e no voluntariado, contribuiu para que a sociedade a olhasse com um profundo apreço e respeito.
A sociedade da época nunca se preocupava com os estados de miséria que a rodeava, nem tão pouco se sensibilizava com os problemas dos mais desfavorecidos.
Mas Jéssica era a excepção à regra, ela era sem dúvida uma alma fora do comum.
– Que razão tem o destino para ser tão cruel connosco? – perguntou Jéssica – dedicamos a nossa vida ao serviço dos outros, enquanto que a nós… ninguém ajuda.
Passava em revista todas estas lembranças, mantendo o olhar preso à imagem do passado, no seu auto-retrato. E ambas se interrogavam. A diferença que existia entre as duas era abismal.
A Jéssica actual não transparecia bondade, nem ternura, nem esperança. Não havia nela nada da mulher de outrora. Encontrava-se ressequida, tudo se esvaíra de dentro dela. Tudo menos aquela maldita enfermidade.
As últimas palavras que o responsável da equipa médica lhe proferira nessa mesma manhã, martelavam ainda na sua mente.
– Lamento muito, mas não há nada que possamos fazer por si.
Que ironia meu Deus.
– Não há nada a fazer – recalcava aquelas palavras sem desviar o olhar do quadro.
Não havia nada a fazer nem a ninguém a quem recorrer, e ainda que houvesse, ela já não possuía dinheiro nem bens.
A herança que os seus pais lhe deixaram e as poupanças que amealhou ao longo dos anos tinham sido gastas nas inúmeras consultas e tratamentos que fez. Bateu a todas as portas possíveis e imagináveis, desde médicos a curandeiros. E encontrou de tudo um pouco. Charlatães e vigaristas que lhe extorquiram tudo quanto puderam, em troca de falsas esperanças.
Outros, tal como o último médico, eram honestos, mas tinham os prognósticos desfavoráveis.
Dado que não havia mais nada a fazer, iria aguardar ali pelo inevitável desfecho.
Aguardaria com tranquilidade a chegada da morte, porque só ela tinha o poder para a libertar de todo aquele sofrimento.
Subitamente uma forte rajada de vento Norte invadiu-lhe o quarto, abrindo a janela entreaberta de par em par. A cortina era agora sacudida violentamente.
Desperta que foi dos seus pensamentos, Jéssica ergueu-se lentamente do leito para fechar a janela, mas não conseguiu.
As suas forças não eram muitas, mas o vento era realmente forte.
– De onde saiu este vento? – Jéssica esforçava-se ao máximo mas de nada valia.
Cansada, preparava-se para regressar ao leito quando ouviu vozes vindas da rua.
– O Nazareno vem aí! O Nazareno e os seus discípulos. Venham ver os milagres que opera. – anunciava uma desconhecida voz, ao percorrer a rua.
– Milagres? – repetiu Jéssica – não há milagres para quem está como eu condenada a morte. Milagres…
Reparou com espanto que o vento tinha acalmado por completo.
– Que estranho – pensou ao mesmo tempo que fechava a janela.
Aquela súbita rajada de vento que a obrigou a emergir dos pensamentos, a erguer-se do leito, e a impediu de fechar a janela parecia querer chamar a sua atenção.
– O Nazareno… já ouvi falar deste Nazareno – o nome não lhe era estranho – mas onde?
Sentada na beira da cama, Jéssica começou a revolver as suas memórias.
– Nazareno… Ah… já sei! É o filho de um carpinteiro de nome José. – recordou-se então de um velhinho muito doente, que tinha sido abandonado pelos filhos durante a festa da Páscoa. Ele contou-lhe que uns anos antes, pouco tempo depois de ela vir ao mundo, tinha nascido em Belém um bebé de nome Jesus, o qual se dizia ser o Messias aguardado e pelos profetas anunciado.
Esse velhinho estava convicto de que assim era, e antes de morrer disse-lhe que só Jesus, o Nazareno tinha poder para salvar a humanidade.
Depois disso ouviu vários relatos de milagres, mas nunca ligou. Estava mais preocupada em ajudar aqueles que dependiam do seu auxílio, porque se não fosse ela, passariam bem pior.
Jéssica era prática e objectiva, e não acreditava em fábulas ou contos. Tinha que ver para crer, e o que via era desgraça e tragédia.
E o povo aumenta sempre um ponto nos relatos que faz… quantos pontos não teriam sido já acrescentados desde a data do seu nascimento?
– Venham todos ver o Nazareno – a voz bateu-lhe com tanta força à janela que Jéssica quase caiu da cama, com o salto que deu.
– Santo Deus – soltou com a voz enfraquecida – o homem está doido.
Não lhe interessava para nada aquelas notícias, só queria ficar ali sossegada.
Já que ninguém tinha solução para o seu problema de saúde, ao menos deixassem-na morrer em paz.
Ou será que também não tinha esse direito?
Estava zangada com tudo e com todos, mas principalmente com a vida.
Deitou-se novamente sobre a cama e tentou adormecer. Não queria pensar em nada, nem nas lembranças. Apesar de balsâmicas também se tornavam dolorosas quando chegava a realidade.
Rendia-se por completo e agora achava mesmo que queria morrer, sim era isso.
– Quero morrer em paz e acabar de vez com este tormento que me persegue à doze anos. Já basta. – cerrou os olhos com força.
Aquela voz desconhecida, que momentos antes gritava pelas ruas, continuava a ouvir-se na mente.
Jéssica revirava-se de um lado para outro mas a voz permanecia ali.
Por fim, cansada de tanto se remexer, sentou-se na cama e fixou o olhar no auto-retrato.
– Queres explicar-me o que se passa? Porque razão não consigo dormir e morrer em paz? – questionou-se ela.
– Não estás a espera que eu me levante e vá atrás desse Nazareno, pois não?
Na imagem daquela que fora a Jéssica de outrora, transparecia o brilho característico da sua bondade. O seu sorriso, era todo ternura e esperança…
– Mau… – proferiu com um levantar de sobrolho.
Gerou-se um diálogo entre ambas… Jéssica e o seu auto-retrato, que só era perceptível através das respostas e perguntas que iam sendo proferidas por ela.
– Sabes bem o quanto estou cansada – disse – por isso não vou a lado nenhum.
– Sim, eu sei que já recorri a muitos sítios, por isso mesmo é que estou farta de acender a nossa lamparina da esperança, para depois ter de a apagar.
– Não insistas – disse num grito abafado pelas lágrimas que voltavam a cair-lhe com abundância. – Não vou, desiste… por favor!
Jéssica travava uma luta violenta. A sua esperança recusava-se a baixar os braços e contendia insistentemente com ela.
– Tu não vês como estou? – questionou por entre os soluços que a sacudiam – Acabaram-se-me as forças, o optimismo, o dinheiro, a coragem, a esperança… acabou tudo, tudo…
Enrolada sobre si deixou que as lágrimas que ainda lhe restavam, lhe lavassem as dores provocadas pela amargura e revolta que sentia.
Ficou assim durante tanto tempo, que acabou por adormecer.

O auto-retrato

(continuação)

Despertou ao som do chilrear alegre de um pássaro, que ela nunca ouvira antes.
– Que pássaro é este? – ergueu-se muito devagar, dirigindo-se de seguida para a janela do quarto. Abriu-a, lentamente, para não espantar o passarinho cantante.
– Uau! Que lindo – exclamou. Era uma ave pequena com a plumagem em tons de azul e cinza, e o peito era de um laranja fogo.
A ave parou de cantar e deixou que Jéssica a observasse, de seguida levantou voo e partiu dali.
– Nunca vi esta espécie de pássaros por aqui – comentou de si para si – Que estranho…
Ao retornar à cama prendeu o olhar no auto-retrato.
– Continuam os mistérios, não é? Será que tens razão quando dizes que devo ir ter com Jesus o Nazareno?
De repente soa da rua uma voz de criança que grita:
– Ele já chegou, ele já chegou!
Jéssica abeirou-se da janela e com a voz meio enfraquecida, e meio rouca, perguntou à criança:
– Quem é que chegou, rapazinho?
O miúdo olhou para trás e ao vê-la fez uma pequena careta, mas de imediato sorriu-lhe:
– Foi Jesus, o Nazareno. Chegou a aldeia e uma multidão já está lá para o receber, venha.
Aquele convite soou-lhe diferente, porém especial, tal como o semblante daquele rapazinho. Havia algo na sua expressão que ela não conseguia definir e, sem oferecer resistência respondeu:
– Sim, eu já lá vou ter. Obrigada.
– Vou estar à sua espera – disse a criança com um largo sorriso e desapareceu.
Não podia voltar com a sua palavra atrás, dissera ao rapazinho que ia e apesar de lhe custar imenso faze-lo iria cumprir com a palavra dada.
Regressou ao interior do quarto olhou para o quadro e disse:
– É verdade, ganhaste… eu vou lá – sorria ao dizer aquilo – o rapazinho diz que está lá uma grande multidão, mas eu creio que se tocar apenas na orla das suas vestes, serei curada.
Se o quadro pudesse expressar o seu espanto…
Havia anos que não se via aquele brilho no rosto de Jéssica. Essa era uma das razões porque não havia um espelho naquele quarto, nem ela suportava olhar para a sua decadência gradual.
Mas algo mudara em Jéssica, havia um renascer de esperança, vindo não se sabe de onde, mas também não era importante.
Foi com algum custo que Jéssica se preparou para sair, mas antes ainda olhou para o quadro, com o dedo indicador apontado e disse:
-Fica desde já a saber que esta é a última vez que te dou ouvidos. A última!
E saiu, batendo a porta atrás de si.
A movimentação nas ruas denotava que algo de anormal se passava. As pessoas falavam e gesticulavam de modo exagerado e nem a cumprimentavam de tão distraídas que iam.
Durante o trajecto ouviu que a filha do príncipe da sinagoga, de nome Jairo, estava às portas da morte. Diziam que Jairo pretendia que Jesus fosse até sua casa para curar a menina.
– Se até o príncipe da sinagoga crê que Jesus pode curar a sua filha, fazendo um milagre, então também me poderá curar a mim – disse Jéssica de si para si com renovada esperança e maior convicção.
O resto da viagem pareceu-lhe uma eternidade, queria tanto ver esse Jesus de perto e poder tocar na orla das suas vestes…
Mas ao chegar lá, deparou-se com um tremendo obstáculo. A multidão que cercava Jesus era tanta que ela nem conseguia visualizá-lo.
– Se não consigo vê-lo, como vou poder aproximar-me e tocar-lhe? – o desânimo voltava a instalar-se.
– Vai desistir agora? – era o rapazinho, que a observava de cima do telhado de uma casa – Vai desistir agora? – insistiu ele sem desviar os olhos do rosto de Jéssica.
– Achas-me capaz de desistir assim tão facilmente? – perguntou ela tentando aparentar uma coragem que não tinha.
– Claro que não. Quem desiste não alcança vitória!
-Exactamente – anuiu Jéssica.
Olhou a sua volta na tentativa de encontrar uma brecha para chegar até Jesus, e como não conseguia ver, resolveu perguntar ao rapazinho. Ele de cima do telhado poderia ajudar a escolher o melhor trajecto.
Mas quando se voltou para o lugar onde este se encontrava, já ele tinha desaparecido.
– Que rapazinho estranho, aparece e desaparece como o vento.
Ao mesmo tempo que pensava no rapazinho misterioso, era engolida pela multidão que a apertava de um lado para o outro. Sem saber muito bem por onde ir, Jéssica tentava furar ora pela esquerda, ora pela direita, em direcção à voz que ela julgava ser de Jesus. O povo chamava o seu nome, suplicando por bênção e milagres, enquanto outras vozes tentavam acalmá-los mas sem sucesso.
A distância que a separava de Jesus, o Nazareno, não era muita, talvez umas dezenas de metros mas percorre-los foi uma autêntica maratona. Tão dolorosa como a que a história regista.
É visivelmente esgotada e no limite das suas forças que Jéssica, ergue o seu braço por entre o povo, e toca na orla do vestido de Jesus.
Ela sente de imediato, que a hemorragia que há doze anos a atormentava, estanca.
Mas Jesus apercebendo-se do que lhe sucedera pergunta:
– Quem é que me tocou? – gera-se de imediato uma enorme confusão, e um dos discípulos que o acompanhava, Pedro diz:
– Mestre a multidão que te cerca aperta-te e comprime, e tu perguntas quem te tocou?
– Sim, Pedro – respondeu-lhe Jesus – alguém me tocou, porque bem sei que de mim saiu virtude.
Jéssica fora apanhada, e sabendo que não podia ocultar-se, resolveu confessar:
– Fui eu Mestre – confessou-lhe Jéssica, enquanto se aproximava tremendo, e prostrando-se diante de Jesus, relatou-lhe toda a sua história.
Jesus ouviu-a atentamente, e também o povo que os cercava e que entretanto se silenciara.
A voz embargada de Jéssica denunciava com clareza a comoção, pela qual foi subitamente invadida.
O ar carregado de expectação ouvia atentamente o relato sucinto dos seus doze anos, e a forma como se abeirara de Jesus para receber a cura.
Não sabia que tipo de reacção, o seu atrevimento, iria merecer por parte de Jesus, o Nazareno, e por isso temia…

O auto-retrato

(continuação)

Foi com manifesta surpresa que ouviu Jesus dizer-lhe que tivesse bom ânimo, a sua fé salvara-a, podia partir em paz. Em sequência, o seu auxílio, ergueu-a do chão. Jéssica atónita e sem palavras, deixou que as lágrimas falassem por si.
Mas a desgraça rondava a multidão e não permitiu que houvesse celebração.
Abeirando-se de Jairo, um dos príncipes da sinagoga, comunicou-lhe que a sua filha tinha acabado de falecer.
O pranto instalou-se de imediato no meio da multidão agitada pela notícia. 
Na posse do milagre, Jéssica albergava agora no seu coração toda a humanidade.
Jairo, visivelmente açoitado pela dor, exercia uma forte pressão nos seus maxilares. E um manto rubro cobriu-lhe subitamente as janelas da alma.
Jéssica observava o semblante de Jairo comovida, e sentiu uma dor implacável a trespassá-la também.
A voz revestida de compaixão, disse àquele pai que não temesse, mas cresse que a sua filha seria salva.
Jairo limitou-se a acenar em concordância com Jesus.
– É verdadeiramente um homem de fé – afirmou alguém do meio do povo.
Jéssica sentia-se exausta, o corpo suplicava-lhe por descanso mas o seu coração não o escutava. Em vez disso, juntou-se ao grupo que acompanhou Jesus e os discípulos até a casa de Jairo.
Era-lhe necessário saber o desfecho daquela história e conhecer mais do homem que a curará.
Durante o trajecto foram-se erguendo no ar nuvens de choro e pesar, mas as críticas ao comportamento de Jesus, o Nazareno, não se fizeram esperar.
– A menina podia estar viva se ele tivesse atendido ao pedido de Jairo. – dizia uma voz – e tanto que o pobre homem lhe suplicou para que fosse a sua casa. Eu ouvi!
– Sabes lá tu o que dizes mulher – ironizou outra – achas mesmo que o Nazareno possui assim tantos poderes?
Jéssica não se conteve diante de toda aquela incredulidade, e disparou:
– Hipócritas! Contemplastes os milagres com os vossos olhos, e já os maldizeis com o coração?
Os olhares silenciaram a sua descrença perante a questão pertinente.
O sol escaldante que se fazia sentir aquela hora do dia, incidia de forma impiedosa sobre os seus corpos cansados. E a poeira que, se erguia das passadas lentas da multidão, cobria com intensidade a visão daquele povo descrente.
– É a mulher do milagre que vimos a pouco – sussurrou alguém.
– Ah pois é… – exclamou uma voz – mas olhem… já nem parece a mesma.
Jéssica não tinha a menor noção da transformação que ocorrera no seu rosto.
Sabia o que acabava de suceder no seu corpo. O contínuo esvair de sangue, o mal-estar e aquela sensação de extrema fadiga, que a perseguiu durante doze longos anos, tinham desaparecido. Mas desconhecia que a palidez que antes lhe cobria as faces, se tinha igualmente dissipado.
– Um simples toque – disse Jéssica com o sorriso nos olhos – tudo aconteceu com um simples toque de fé.
– Como ousas afirmar com tanta convicção que estás curada? Acaso já to comprovou algum médico? – Jéssica apercebeu-se que aquela pergunta era feita com um único objectivo. Desacreditar a Jesus o, Nazareno.
– Vedes estas pedras do caminho? Assim sois vós e os vossos corações, duros e revestidos da imundície que vos cega o entendimento.
– Porque vos recusais a ver o que está diante dos vossos olhos? Ouvis falar dos prodígios e das maravilhas que o Mestre opera. Contemplais as mesmas, e ainda assim teimais em pedir mais provas? E tudo porque dais guarida á incredulidade.
Jéssica falava com uma autoridade e convicção fora do comum.
– Não será esta a filha do falecido visionário? – a pergunta era-lhe lançada por um homem de meia-idade. A sua roupagem denunciava pertencer aos principais da sinagoga.
Ouvira-a com atenção e, secretamente, admirou a eloquência defensiva daquela mulher.
– Sim, sou eu mesma – disse com manifesto orgulho.
Como era bom saber que alguém se recordava do seu pai…
– Faz muito tempo que ninguém sabia de ti, pensávamos que tinhas partido com o teu irmão para Jaffa. – denotava conhecimento sobre a sua família.
– A doença, que sobre mim se abateu durante mais de uma década, condicionou-me os movimentos. As minhas saídas restringiam-se, unicamente, na busca de cura.
– Compreendo – caminhavam lado a lado, em conversa aberta e sob os olhares atentos das carpideiras.
– Mas diga-me, conheceu o meu pai? – questionou curiosa.
– Sim, conheci. E ao ouvir a exposição acalorada das tuas convicções, pareceu-me estar novamente diante dele.
– O Visionário – pronunciou com tom subtil de provocação, e Jéssica sorriu – eu era um bom amigo do seu pai, e isso deu-me me o privilégio de escutar algumas das suas ideias mais avançadas.
– As mesmas que eu vou continuar a defender – assegurou ela prontamente.
Não restava a menor dúvida, aquela mulher era filha do famoso visionário.
A segurança, com que proferiu aquelas palavras, demonstrou claramente a sua origem.
– E faz muitíssimo bem, embora ache que as mentalidades continuam tão fechadas como há doze anos atrás.
– Não faz mal, elas hão-de abrir-se algum dia. Não podemos é baixar os braços quando temos a certeza de estar certos.
– Concordo. – estava fascinado com a força e a determinação que soavam de uma mulher aparentemente tão frágil.
O pranto intensificava-se à medida que se aproximavam da casa de Jairo. Os amigos e vizinhos aguardavam a sua chegada com o rosto manchado de dor.
Jairo percorreu o sinuoso caminho ao lado de Jesus, e a paz que dimanava dele acalmara-o.
Somente Pedro, Tiago e João entraram com o Mestre na habitação de Jairo.
O espírito irrequieto de Jéssica abeirou-se da entrada da casa, de onde pôde ver que a menina repousava o corpo sem vida nos braços inconsoláveis da sua mãe.
O ar encontrava-se impregnado de fluidos lacrimais.
Jesus aproximou-se da menina e pediu-lhes que não chorassem porque ela apenas dormia, não estava morta.
Ao ouvir as suas palavras, os familiares e amigos que se encontravam presentes no interior da habitação riram-se dele.
Eles sabiam melhor do que ninguém que menina estava realmente morta.
Jesus, indiferente aos seus comentários, ordenou-lhe que se retirassem dali, com excepção dos discípulos e os pais da criança.
Um após outro, foram saindo e reclamando contra o visitante.
Jairo não se deixou perturbar e, deu seguimento, à ordem do Mestre.
O vermelho que havia em seus olhos cruzou-se com a mulher que, pouco tempo antes, tinha sido curada pelo Nazareno.
Com um ligeiro movimento de cabeça e sem erguer a voz, pediu-lhe permissão para fechar a porta, ao que Jéssica anuiu.
Ninguém sabe o que aconteceu, mas não tardou muito a ouvir-se uma ruidosa manifestação de júbilo, vinda do interior da casa.
A expectação que se vivia cá fora era tanta como a ânsia de saber tudo quanto sucedia na casa de Jairo. Mas os corações aguardavam silenciosamente pelo abrir daquela porta.

O auto-retrato

(continuação)

Ao fim de um tempo, que lhes pareceu uma eternidade, surgem diante deles Jairo, sua esposa e… a menina.
A emoção apoderou-se dos corações amigos a qual por entre lágrimas de alegria e espanto, grita entusiasticamente:
– Milagre! Milagre!
Jéssica permanecia imóvel junto a ombreira da porta. Olhava aquela família e sentia a mesma comoção, que horas antes a invadira.
Bastou uma simples troca de olhar para gerar uma sintonia perfeita entre a pequena e ela.
– Alegrai-vos e celebrai connosco – convidou Jairo – porque onde abundavam o pranto e a dor, há agora abundante vida.
– Viva! Viva! – gritavam em uníssono.
O Mestre afastou-se, discretamente dali, juntamente com os seus discípulos, levando consigo a gratidão daquelas quatro almas.
Enquanto isso, o povo prosseguia com as manifestações de regozijo e na troca de abraços.
Era altura de Jéssica regressar a casa.
Tinha-se negado em dar ouvidos ao corpo que lhe suplicava por descanso, mas já nada a prendia aquele local. Era-lhe necessário recuperar do impacto, que toda aquela emotividade lhe causara.
O casal ao aperceber-se que ela partia, chamou:
– Mulher! Espera…
Com o corpo moído voltou-se na sua direcção:
– Sim… – respondeu ela.
– Não queres ficar um pouco mais para festejar connosco? – perguntou-lhe com amabilidade a mulher de Jairo.
– Gostaria muito de ficar, e agradeço o vosso convite – respondeu fixando-se na pequena – mas o cansaço pede-me que regresse a casa.
– É natural, o dia foi demasiado longo e cansativo – disse Jairo.
– Espera-te alguém? – perguntou-lhe a esposa de Jairo.
– Não, ninguém. – respondeu-lhe Jéssica com tristeza.
– E voltas cá? – perguntou-lhe a menina que entretanto largara a mão da mãe para se aproximar Jéssica.
– Se puder… volto – respondeu-lhe ao segurar-lhe nas suas mãozinhas delicadas – queres que volte?
– Quero, podes voltar amanhã?
Os olhos de Jéssica ergueram-se na direcção dos pais que assistiam a tudo.
– Será um prazer receber-te em nossa casa. – disse a mãe da pequena.
– Encontrarás as portas abertas como se fosses da família. – reforçou Jairo.
O olhar revestido de ternura envolveu a menina com um abraço, que prometia voltar no dia seguinte, mas antes disso, perguntou-lhe:
– Gostaria de saber o teu nome antes de ir embora. Queres dizer-mo?
– Sim, chamo-me Ana como a minha mãe – respondeu com um largo sorriso.
– Têm ambas um lindo nome, o meu é Jéssica.
– Também é lindo, não é mamã?! – todos sorriram perante a espontaneidade da pequena.
A vizinhança unia-se para elaborar uma ementa digna daquela celebração. As mulheres atarefadas combinavam entre si a preparação de saborosos manjares e doçarias. Ninguém se queria abster de participar num tão grande acontecimento. Jéssica despediu-se da família de Jairo com um sorriso no rosto.
– Se precisar de apoio para a sua causa, não hesite em procurar-me – gritou-lhe uma voz alegre do meio dos festejos.
Não conhecia o homem com quem trocara umas quantas palavras momentos antes, mas o facto de saber que este convivera com o seu pai, e manifestava apoio publicamente, agradou-lhe.
– Obrigada – agradeceu ao afastar-se.

O auto-retrato

(continuação)

Ao chegar a casa, direccionou-se de imediato para o quarto. Abriu a porta muito devagarinho, e espreitou sorrateiramente para dentro. Olhou para o auto-retrato e com um ar maroto estampado no rosto, disse:
– Vou tomar um banho para tirar toda esta poeira e já venho conversar contigo. Não saias daí, ouviste? – encostou a porta, para regressar algum tempo depois.
Envergava uma camisa de noite, branca, que a cobria até aos pés, tecida em linho puro mas com uma textura tão fina que mais parecia seda.
O cabelo solto e ondulado cobria-lhe por completo as costas, e decorava com simplicidade a maciez da sua veste. Saltou com agilidade e desenvoltura para cima da cama e olhou para o quadro.
– Ficaste zangada, foi? – perguntou ao soltar uma gargalhada – Eu estava a brincar contigo… é claro que tu não ias sair daqui.
– Antes de mais, quero agradecer a tua persistência. Ainda bem que me moeste tanto o juízo… e para demonstrar como te estou agradecida – dizia com o dedo indicativo erguido no ar – vamos remodelar a decoração do nosso quartito, que dizes?
Olhava em volta como que arquitectando na mente as alterações que tinha a fazer.
– Ah, eu sabia que ias gostar da ideia. É claro que primeiro temos de arranjar dinheiro, e para isso há que começar a trabalhar.
– É verdade – exclamou – recordas-te daquele espelho enorme que tínhamos aqui? Aquele que tu tanto gostavas, lembras-te dele? – o brilho do seu rosto coado, deixava transparecer uma mente em erupção.
– Amanhã de manhã vou buscá-lo aos arrumos, e depois vou ao campo buscar flores silvestres – ergueu o sobrolho em direcção ao quadro – sei que não são as tuas favoritas, mas verás como alegrarão o nosso quarto.
– Nada de exigências requintadas por agora… os lírios virão mais tarde.
Os planos e os projectos interrompidos pela doença invadiam em catadupa a mente alvoraçada. Queria retomar todas as actividades que foram embargadas pela enfermidade. O sofrimento pelo qual passara nos últimos doze anos, não lhe roubou a determinação, a jovialidade nem o vigor de outrora.
O auto-retrato revia com emoção a Jéssica de outros tempos.
– Viste como saltei para a camita? Já não preciso de me encolher… – iniciou o extenso relato, e partilhou com detalhe as emoções vividas:
– Sabes… hoje tomei consciência de uma realidade que nos passou completamente ao lado – disse num tom sério e compenetrado.
– Esquecemo-nos de viver a nossa própria vida – deitada sobre a cama, olhava agora para o tecto do quarto amarelecido pelo tempo.
– Não que me arrependa do que fiz, mas… aquela menina despertou-me um desejo tão grande de ser mãe…
– Já imaginaste o que é carregar dentro de ti o fruto de um grande amor? Colocá-lo no mundo, transportá-lo no teu regaço… ensinar-lhe as primeiras palavras, os primeiros passos…
– Achas que estou a delirar não é? – questionou-se ao fixar novamente o quadro – se calhar estou… A verdade é que se tivesse pensado nisso antes, não tinha conseguido ajudar tanta gente.
– Não me faltaram pretendentes mas tu bem sabes que nenhum deles me permitiria seguir o meu trabalho de voluntariado. Eram todos, umas cabeças duras… e se calhar agora também são.
– Pelo menos aquele homem de quem te falei há pouco, disse que as mentalidades não tinham mudado tanto assim.
De repente, ergueu-se da cama e disparou:
– Estás tonta ou quê? Olha que para a próxima não te conto nada… – parecia zangada com a ideia que o seu auto-retrato denunciou.
Zangada ou envergonhada…
– Nem pensar. Se algum dia o procurar será exclusivamente para solicitar algum tipo de apoio, como ele mesmo me ofereceu. E nada mais que isso, ouviste? Deixa-te de ideias tontas!
O sorriso expresso no quadro, denotava saber algo que ela própria se negava a admitir.
Enterrou novamente o corpo na delicada e nobre colcha de linho bordada à mão, estava extenuada física e psicologicamente.
Olhou a sua volta e recordou que 24 horas antes suplicara por sossego, enquanto aguardava a sua morte.
Mas aquele simples toque de fé nas vestes de Jesus o Nazareno, alterou o seu destino.
Iria seguir o Mestre, nome pelo qual o chamavam os seus discípulos, queria saber e conhecer mais da mensagem que anunciava.
Sentia que o voluntariado que antes fizera, estava incompleto. A humanidade precisa ver saciada a fome do corpo, mas também a da alma.
– Se de graça recebi, de graça vou dar… – disse por fim.
E sob o olhar atento do seu auto-retrato adormeceu.

Florbela Ribeiro
Outubro 2009

ABENÇOADO DESCUIDO

   

 

 

Abençoado descuido

 

 

A Primavera chega à aldeia, ao som do chilrear que as aves trazem nos bicos sorridentes.

As flores, que desabrocham pelas bermas do caminho, perfumam a brisa suave que, delicadamente, também as beija ao passar.

É o renascer da natureza após um rigoroso Inverno.

Nesta época do ano, o Sol desempenha um papel muito importante na vida de Ana. Vai acordá-la todas as manhãs.

Mas para o fazer, tem de se esgueirar sorrateiramente, através duma pequeníssima frincha da janela do quarto de Ana.

 De seguida, projecta sobre o seu rosto uma subtil luminosidade que a faz despertar.

É a envolvência daquele toque morno na sua pele, que a desperta e faz aflorar nos seus lábios um meigo sorriso.

É o seu jeito doce de lhe agradecer, porque é assim que ela gosta de acordar todas as manhãs.

Mas naquele dia isso não aconteceu.

Ana, ao pressentir uma fraca luminosidade entrar-lhe pelo quarto, ergueu-se imediatamente da cama.

Era necessário arrancar das paredes da casa os odores do último Inverno.

Lá fora, o rouxinol madrugador, desafiava os mais dorminhocos a despertar…

Ana abriu a janela de par em par, e respirou com sofreguidão o ar fresco daquela manhã primaveril.

– Que dia magnífico – pensou – excelente para realizar as tarefas que tenho em mente.

Olhou em volta, e no seu raciocínio arquitectou a sequência de todos os trabalhos. Estava tão entusiasmada que quase se esquecia de tomar o pequeno-almoço.

– Ana, Ana… tem calma contigo, mulher! O dia ainda mal nasceu, e antes de iniciares as tuas tarefas, precisas de fazer uma coisinha…

Era como que um ritual, do qual ela jamais abdicava.

As suas orações matinais estavam em primeiríssimo lugar mas… a excitação daquela manhã fez esquecer, ainda que por breves segundos, aquele precioso compromisso.

– Primeiro tens que conversar com o teu Amigo! – Era interessante observar a forma como se exortava. Fazia-o com simplicidade e com graça, revelando um espírito de reverência muito acima da média. Mas a concentração naquela manhã não foi muita… estava demasiado alvoraçada.

Articulou apenas algumas palavras de agradecimento, dirigindo de seguida o olhar até à cozinha. Não estava com apetite, mas iria precisar de energia, para colocar em prática a missão a que se tinha proposto.

Engoliu à pressa um pouco de leite, pegou numa maçã, e deu início aos trabalhos.

Ana é, por natureza, uma mulher prática e inovadora, que se recusa terminantemente a aceitar a rotina do dia-a-dia.

E sempre que faz a já habitual limpeza semanal na casa, gosta de alterar a decoração. Nem que seja apenas a troca de posição de um ou outro bibelô. Mas há sempre algo a denunciar que Ana passou por ali.

Esta característica não passa despercebida aos olhares vizinhos, que lhe tecem elogiosos comentários mas… existe na casa um objecto que provoca em todos, um torcer de nariz.

– Tens a casa sempre tão bonita e bem decorada Ana, mas aquele pote de barro ali, não dá com nada! – Ana limita-se a sorrir perante esta constante observação.

– Se vocês soubessem o que ele contém… – pensava.

Aquele pote era um enigma que todos tentavam descobrir, mas Ana dava-lhes sempre a mesma resposta. Um sorriso tímido, porém mudo.

Não faz muito tempo, que o Sr. José, merceeiro do bairro, lançou a seguinte aposta:

– O vizinho que conseguir arrancar alguma informação sobre o misterioso pote, e o que ele tem lá dentro, fica com a despesa do mês liquidada! Palavra de Zé da loja – Assegurou ele, mas o facto é que ninguém conseguiu arrancar-lhe nada. O mistério persistiu, e dava cada vez mais que pensar.

Passando para segundo plano estas lembranças, Ana arregaçou as mangas e, com determinação, lançou-se ao trabalho.

Iria dar uma reviravolta completa em toda a casa. Ela já tinha visualizado tudo na sua mente, e estava radiante com o resultado.

– A casa até vai parecer outra, oh se vai – pensou com um grande sorriso.

As horas passaram a correr, e Ana não parou um minuto. Lavou janelas, paredes, tectos, cortinas, carpetes, limpou os móveis, trocou-lhes a posição, e lavou as suas decorações. A tarde já ia longa, e Ana estava completamente esgotada, mas feliz. Por fim sentou-se no chão da sala, bem no centro, e olhou à sua volta.

– Está tudo exactamente como idealizei, estás de parabéns, Ana! – um sorriso de contentamento iluminava-lhe o rosto cansado.

– Oh não! – exclamou, erguendo-se num pulo. – Esqueci-me por completo de limpar o pote…. Que cabeça a tua, Ana – repreendeu-se ela, como já era hábito.

De repente, ouviu-se um grande estrondo…sprach!

– Meu Deus, oh meu Deus, isso não…. – as lágrimas caíam-lhe pelo rosto.

– O meu pote de barro…. Oh meu Deus e agora? – sem forças e completamente esmorecida deixou-se cair sobre os joelhos, na fina carpete, coberta de cacos.

Mas o pior foi ver aquele precioso líquido desaparecer-lhe diante dos olhos. Parte dele era absorvido pelo soalho, e outro evaporava.

Ana tentava desesperadamente agarrar aquele aroma, mas não conseguia.

– Como pudeste ser tão descuidada, Ana… Oh Meu Deus… todas as tuas poupanças, todo o teu investimento….

– Perdi tudo, tudo… – Ana reflectia agora a imagem do desespero e da desolação.

O pote de barro que tinha originado tanto mistério e alguma crítica… estava agora fragmentado pela carpete… e o unguento, que secretamente se encontrava nele guardado… erguia-se no ar, ao seu redor.

Através da janela da sala, que Ana mantivera aberta, entrava uma fraca claridade, que anunciava a chegada do anoitecer.

Do meio dela irrompeu uma voz:

– Ana, oh Ana, estás aí?

– Sim, tia Amélia, estou aqui – Ana estremeceu ao ouvir a voz da vizinha.

A tia Amélia é a moradora mais antiga da aldeia. Muito respeitada e admirada por todos, mantém, apesar dos seus 94 anos, um dinamismo e uma jovialidade fora do comum.

– Estou farta de bater à porta e não me ouviste! – os seus olhitos fitavam atentamente o semblante desfigurado de Ana.

– Desculpe, tia Amélia, estava ali mergulhada nos meus pensamentos, e não me apercebi que tinham batido à porta.

– Hum… mergulhada em lágrimas pelo que vejo.

– Sim… – respondeu Ana, com tristeza.

– Mas eu vim dar-te uma boa notícia, rapariga.

– Ai sim? – perguntou num fio de voz, que para os ouvidos cansados da Tia Amélia foi quase inaudível.

– Anda aqui à rua e diz-me o que vês? – Segurou-lhe com firmeza na mão, e puxou-a para fora.

– Mas tia Amélia, eu não estou em condições de… – mas assim que desceu a soleira da porta, reparou que os seus vizinhos estavam todos na rua.

– O que se passa aqui, tia Amélia? Porque estão todos na rua a esta hora?

Àquela hora, era habitual estarem já quase todos recolhidos em casa, principalmente as mulheres e as crianças.

Mas naquele fim de tarde não acontecia assim… estavam todos na rua: homens, mulheres e crianças, e… com os narizitos erguido para o ar.

– Não sentes este delicioso aroma? Está espalhado por toda a aldeia, até mesmo dentro das casas se sente de forma intensa.

– Ah! É o meu unguento, tia… fui tão descuidada – as lágrimas que teimosamente se mantiveram nos olhos, deslizaram novamente pelas faces pálidas.

 – Achas mesmo que foste descuidada, Ana? – A voz da tia Amélia soou com tanta ternura que parecia abraçá-la.

– Fui sim, tia! Hoje, levantei-me bem cedo para fazer uma limpeza geral na casa, e com a correria nem me lembrei de almoçar. E depois…bem… depois eu estava a verificar se tinha tudo em ordem, e reparei que me esqueci de limpar o lugar onde tenho… onde tinha… o pote de barro.

– E o que aconteceu? – insistiu a tia.

– Creio que tive uma ligeira tontura quando me levantei apressada, talvez devido ao cansaço ou fraqueza, não sei bem. O facto é que o pote escorregou-me das mãos… e derramei todo o unguento.

– Vou dizer-te uma coisa que talvez te vá desagradar Ana, mas tu precisas de ouvi-la com muita atenção. – o semblante da tia Amélia estava agora carregado.

– Diga, tia Amélia… – nada do que lhe pudesse dizer, a iria magoar mais do que já estava. Ela já se recriminava tanto…

– Estás a ser demasiado egoísta Ana, e isso não é nada bom – Ana, arregalou os olhos até não poder mais.

– Eu, egoísta? Não estou a perceber, tia! Acabo de lhe dizer que perdi todo unguento, comprado com as minhas poupanças, e a tia diz-me que sou egoísta?

– Claro! Tu achas justo ter escondido este unguento delicioso somente para ti?

– E porque não, tia? O seu valor é elevadíssimo, e fui eu quem trabalhou para o comprar… era meu!

– Ai, ai, ai, Ana! Então tu não sabes que nós nunca devemos esconder as bênçãos que recebemos de Deus? As bênçãos são para ser repartidas com todos aqueles que nos rodeiam…

Repara como o teu descuido perfumou a aldeia… o seu aroma invadiu os quatro cantos do povoado, trazendo a vizinhança para a rua!

– E isso é assim tão bom, tia?

A tia Amélia sorriu ao ver a inocência estampada no rosto de Ana.

– É mais do que bom, minha filha, é maravilhoso! Não voltes a esconder as tuas bênçãos, mas reparte-as com os demais. Deixa que vejam em ti a diferença de teres uma dádiva especial…

O aroma deste unguento deverias tê-lo espargido à tua volta, deverias ter-te perfumado com ele, assim como perfumado a tua casa, e os que moram contigo, por isso é que eu disse que foste egoísta. Pensa comigo, Ana… que proveito teve esse unguento dentro do pote de barro? Nenhum… foi apenas uma vaidade pessoal, nem mesmo tu fizeste uso dele, e isso está errado.

– Ana, atenta bem para o que te vou dizer! Quando tiveres algo de valioso, seja uma bênção ou uma dádiva especial, permite que aqueles que te cercam se apercebam dela e a sintam através da tua felicidade. Só assim poderão desejar alcançar a mesma graça que tu.

– Recordas-te como foi quando encontraste a Salvação? Houve uma mudança na tua vida; o teu semblante mudou, a tua maneira de falar, de pensar e de agir mudaram radicalmente.

– Sim, tia, recordo perfeitamente, como poderia esquecer… – Ana sorria ao recordar o dia em que nasceu de novo.

– Percebes agora o que quero dizer? A tua salvação foi uma bênção visível a todos. Se assim não fosse, não terias tido um verdadeiro e real encontro com Deus.

– Então este meu descuido ao derramar o unguento, não foi uma tragédia? – perguntou Ana, tímida e muito apagada.

– Não, minha querida, eu diria até que o que aconteceu foi um abençoado descuido. – disse a tia, convictamente, com o olhar e as mãos erguidas para o céu.

– Um abençoado descuido… – Ana meditava naquelas palavras, enquanto a tia Amélia via que o seu semblante se ia abrindo – Um abençoado descuido…

Naquele dia, Ana aprendera uma grande lição.

Lição essa que ficaria gravada na memória de toda aldeia.

Anos depois, quase todos aqueles que estiveram presentes nesse fim de tarde, ainda retinham no mais fundo do olfacto, que num dia distante, de uma Primavera distante, pelo entardecer, a aldeia respirara a mais doce fragrância alguma vez sentida…

 

 

Florbela Ribeiro A. S.

 

 

    

Redemoinhos

 

1MulherOrar

 

 

 Redemoinhos

 

A dor que me inundava naquele momento era indescritível.

Um redemoinho vindo ninguém sabe de onde, destruiu por completo a minha vida.

Arrombou subitamente a porta do meu lar, lançando para bem longe a quietude e a paz.

No rasto da sua passagem ficaram para além da dor, muitas outras aflições.

– Tinha ainda tanto para dar à vida…

– Sim…era tão jovem, mas a morte não escolhe idades.

Eram estes os comentários feitos durante o trajecto daquele cortejo fúnebre.

O coral de mulheres carpideiras, todas vestidas de negro, assemelhava-se a um quadro imaginário.

Era como se tudo aquilo não passasse de um sonho, ou melhor, de um pesadelo, onde eu não me enquadrava.

– Está em estado de choque a pobrezinha – diziam algumas vozes amigas.

– Não admira, sendo ainda tão nova, e os meninos tão pequenos… que Deus tenha misericórdia dela…

O eco das suas vozes chegava até a mim como algo estranho e irreal…

Seria de mim que falavam? Era o meu infortúnio que lamentavam?

Desgraçadamente era, mas a dor do momento deixou-me completamente anestesiada.

Não recordo ainda hoje com clareza o trajecto, e as palavras proferidas por Eliseu na cerimónia fúnebre de Ami.

Lembro-me, isso sim, de regressar ao meu lar com o corpo dorido até as entranhas…

Mas sem lhe dar descanso, vagueei toda a noite pela casa como uma moribunda, percorrendo com o olhar cada recanto.

Revivi em cada um, belos momentos passados com o meu Ami, e chorei amargamente a minha perda. Permaneci porém, por longos dias, com as janelas da minha alma abertas, como que aguardando a sua chegada. Mas o meu amor nunca mais voltou…

Aos poucos, fui despertando daquela nostálgica apatia em que inconscientemente mergulhei, e confrontei-me com a minha nova realidade. E que dura realidade aquela, meu Deus…

A morte de Ami veio sem aviso prévio. Via-me agora sozinha, com duas crianças pequenas que precisavam urgentemente de mim. Noam tinha 5 anos e Zamir acabara de completar 8 primaveras.

Ami era um homem por natureza optimista e até um pouco sonhador, mas eu adorava ouvi-lo projectar as suas ideias e os seus sonhos para o futuro.

Ele tinha tantos planos…, mas o destino cancelou-lhos todos.

– Mamã, o papá vai demorar muito para chegar a casa? – Perguntou-me Noam com a voz cheia de ternura.

Os seus olhitos ansiosos aguardavam por uma resposta contrária aquela que o seu coraçãozinho lhe ditava.

– Vai meu amor – respondi-lhe esboçando um sorriso apático – o papá foi fazer uma longa viagem. Mas um dia nós vamos ter com ele, sim?

– Porque não vamos já mamã? – Perguntou amuado.

– Não podemos ir agora meu amor. – Magoou-me tanto ver a dor invadir o seu rostinho inocente.

– Oh, mas eu quero ir agora com o papá… – agarrou-se ao meu pescoço com toda a força, e chorou convulsivamente.

Zamir, o meu filho mais velho, que assistia em silêncio disse:

– Não sejas choramingas. O papá conta connosco para cuidar da mamã e da casa enquanto está em viagem. – As lágrimas que rolavam pelo seu rosto, e que ele teimava em limpar disfarçadamente, eram as únicas a atraiçoar a sua postura forte.

– Meus pequenos homenzinhos – disse comovida ao envolve-lo também naquele abraço.

Foi nesta salinha minúscula, e no calor de um abraço a três que nos despedimos de Ami.

                                                                   

                

Mas, não tardou muito tempo até que outro redemoinho arrombasse a nossa vida. Há quem diga que a desgraça nunca vem só, e é verdade.

Despertei com a claridade que diariamente entrava pela frincha da janela do meu quarto, e anunciava o despontar de um novo dia.

Sempre gostei de acordar cedo para fazer a minha oração matinal, e depois com o silêncio ainda a reinar pela casa, preparar o pequeno-almoço das crianças.

Mas naquela manhã, tudo foi diferente. Após terminar o meu tempo de oração, soaram na porta, umas pancadas desconhecidas e violentas.

Não era normal por aquelas horas receberem-se visitas, e eu muito menos, dado que era uma mulher viúva. Receosa e com o coração alvoraçado abri a porta.

Deparei-me com um homem alto de meia-idade, e semblante carregado.

– Venho fazer a cobrança – disparou ele sem ao menos me saudar.

– Cobrança? – Disse meio a gaguejar – Mas, a que cobrança se refere?

– A esta – disse lançando-me em rosto um papel repleto de números e com duas assinaturas.

– Tudo isto? – Perguntei com o olhar arregalado – Mas é muito dinheiro, o senhor deve saber que o meu marido faleceu e ….

– Não estou interessado nos seus problemas – a sua voz soava como um trovão nos meus ouvidos – ou me paga o que deve dentro de 8 dias, ou levarei os rapazes comigo!

– Meu Deus, valei-me… – foi a única coisa que consegui articular.

Olhou-me sem piedade de alto a baixo, antes de desaparecer.

Nas minhas mãos estava agora uma dívida enorme, que eu não sabia como, nem quando poderia pagar.

– O que faço agora meu Deus? Eu não tenho nem dinheiro nem bens a que possa recorrer, e aquele homem não veio aqui disposto a negociar – percorrendo a pequena divisão da casa de um lado para o outro, dialogava em voz alta com Deus.

– Oito dias, ele disse que se em oito dias eu não pagasse, viria buscar o que de mais valioso eu tenho na vida, os meus dois filhos. Ah meu Senhor tu não podes permitir que esta desgraça se abata sobre mim…

– Mamã está a conversar com alguém? – Zamir observava-me meio assustado.

– Não meu amor estava a pensar alto, só isso!

Ambos tinham acordado, provavelmente, com o bater da porta. Tentei aparentar uma calma que não sentia e preparei-lhes o pequeno-almoço.

De seguida solicitei ajuda a uma vizinha minha amiga.

Pedi-lhe que ficasse com os pequenos por algum tempo, dado que tinha um assunto importante a resolver.

Sabendo eu que deixara as crianças em boas mãos, refugiei-me nos meus aposentos e derramei a minha alma desesperada, aos pés do Senhor.

Só Ele me poderia socorrer e libertar de tão grande aflição.

Ali fiquei por muito tempo…. Clamando, suplicando e implorando ajuda e misericórdia.

Lavei com lágrimas o meu desespero, e depositei-o no altar do Senhor.

Depois fiquei atenta à Sua voz, permanecendo ali por um longo tempo de joelhos, e em silêncio.

– O profeta Eliseu – disse em voz alta, quando o seu nome assaltou subitamente a minha mente. Eis a resposta de Deus ás minhas súplicas.

Sem mais demoras fui ao seu encontro.

Encontrei-o na escola, rodeado de rostos que Ami tão bem conhecia.

Vendo ele o desespero estampado no meu rosto, dirigiu-se ao meu encontro.

– O que é que aconteceu Bartira, para vires aqui nessa aflição?

– Peço que me perdoe pelo atrevimento de vir aqui incomoda-lo, mas estou realmente muito angustiada. – As lágrimas que me corriam pela face eram mais velozes do que as palavras.

– Ami era um bom marido, um bom pai, e um servo fiel e dedicado, como bem sabe, mas aprouve a Deus chama-lo cedo.

– Sim é verdade … – confirmou o Profeta Eliseu.

– Era tão dinâmico e optimista… A sua mente estava sempre povoada por inúmeros planos – Continuei com a voz embargada pelo sofrimento – mas hoje pela manhã foi um credor lá a casa, e avisou-me que se eu não pagar esta dívida em 8 dias, leva as crianças.

Ao contemplar aquele rol de números, exclamou:

– Oh valha-me Deus! E agora o que vamos fazer? – Olhava-me perplexo e pensativo – O que tens lá em casa de valor? 

– De valor… apenas um pouco de azeite numa garrafa, nada mais.

– Então vais fazer o seguinte. Percorre todas as tuas vizinhas e pede-lhes emprestadas muitas vasilhas vazias! Depois em casa com a porta fechada e na companhia dos teus filhos, enche todas as vasilhas que conseguiste com o azeite que tens na garrafa.

– Santo Deus – Pensei para comigo. A ordem do profeta Eliseu não fazia qualquer sentido. Eu tinha um pouco de azeite numa garrafa, como poderia eu encher muitas vasilhas com ele? Olhei-o nos olhos, e sem o questionar despedi-me para obedecer à sua ordem. No caminho para casa, fui solicitando as vasilhas.

Grandes ou pequenas não importava, o que tinham era de ser muitas.

Fui buscar Noam e Zamir, fechei a porta atrás de nós, e comecei a verter o azeite na primeira vasilha.

Aquele líquido precioso jorrava agora da minha garrafa sem parar, e com ele fui enchendo, enchendo as vasilhas, uma a uma até que se acabaram.

– Não há mais mamã – soltou num gritinho jubiloso Noam.

– Nem há espaço para mais – concluiu Zamir.

Os nossos corações não cabiam em nós de contentes. Tinha acontecido diante dos nossos olhos um milagre maravilhoso.

– Não faz mal meus amores – disse eu – vamos comunicar esta bênção ao Profeta Eliseu, e ele nos dirá o que fazer com tanto azeite.

A angústia desapareceu do meu rosto, e deu lugar a fé.

– Fiz tudo como o Profeta Eliseu mandou. E só quando acabaram as vasilhas é que o azeite parou de jorrar da minha garrafa.

– Fizeste bem em ser obediente Bartira. O Senhor se alegrou e abençoou a tua fé. Agora vende o azeite, e com o dinheiro dessa venda, paga a tua dívida e vive tu e os teus filhos do resto.

E assim fiz, vendi o azeite, saldei a minha divida e sigo vivendo do restante.

A emoção que senti naquele momento foi tanta que só através das lágrimas a pude expressar

Era tanta a gratidão que brotava do meu coração

Foram duras as provas pelas quais passei, naquela época atribulada.

Mas o Senhor tem os seus propósitos. Hoje sei porque motivo Ele permitiu que aqueles redemoinhos invadissem a minha vida.

Aqueles redemoinhos obrigaram-me a uma maior dependência de Deus, e isso reverteu em maturidade e crescimento espiritual.

A Deus toda a Glória!

 

Florbela Ribeiro A. S.

Agosto 2008

O Cavalo Branco

 

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O Cavalo Branco

 

 

 A forte probabilidade do País entrar em guerra, desassossegou a pacatez da pequena aldeia.

 

Os ventos que chegavam de longe e traziam a notícia, não agoiravam nada de bom.

 

– Avizinham-se tempos difíceis meus amigos… – Tomé, o dono do pequeno café, sentenciava com alta voz o que toda clientela temia.

 

Esta informação gerava grande apreensão e inquietação, principalmente aos chefes de família.

 

O assunto demasiado sério gerou um debate aceso que se estendeu por toda a manhã.

 

No entanto Alexandre parecia completamente alheado de tudo…

 

Sentado numa mesa ao fundo, olhava para o exterior, enquanto bebia o seu café.

 

Lá fora um pequeno pardal saltitava por entre flocos de neve que caíam naquela manhã de Outono.

 

– Então Alexandre, não dizes nada? – Fazia tempo que Tomé o observava.

 

Existia um laço de amizade muito forte entre ambos, nascido na meninice, o que fez deles “amigos inseparáveis”.

 

Cresceram e amadureceram juntos, e bem cedo todos se aperceberam que havia uma cumplicidade entre eles.

 

Podia ser uma brincadeira inocente ou a pior das traquinices, mas onde estava o dedo de um, estava também a mão de outro, isso era garantido!

 

Eles eram verdadeiramente irmãos de alma e coração.

 

Bastava uma troca de olhares para decifrarem entre si o que sentiam ou pensavam. Naquele exacto momento Tomé sabia que Alexandre pensava em Maria, por isso arranjou maneira de o trazer de volta.

 

– Enquanto lá fora cai a primeira camada de neve, aqui o calor está ao rubro – constatou Alexandre em jeito de brincadeira, para aliviar a tensão que pairava no ar.

 

– Ora aí está uma boa maneira de aquecer os corpos gelados que aqui chegam. – Soltou Tomé com uma risada estridente.

 

Toda a clientela o acompanhou, aliviando assim o clima pesado que se ali se formara. Alexandre não era um homem de muitas palavras, embora fosse bastante observador.

 

As vezes dava mesmo a sensação de estar totalmente alheado, mas tal não era verdade.

 

A realidade é que ele não gostava nem de opinar sobre assuntos dos quais não tinha um conhecimento aprofundado, nem de rumores.

 

E a notícia da guerra que ali se debatia naquela manhã, não passava disso mesmo, rumores. Pelo menos por agora…

 

Nutria por todos os presentes uma grande estima, mas havia um detalhe com o qual Alexandre não se identificava.

 

Aqueles homens gostavam de passar horas e horas em grandes debates, a tecer os mais variados comentários independentemente do tema ou da veracidade do mesmo.

 

Para eles não era relevante se o mesmo era ou não verdade.

 

Se fosse boato mais tarde ou mais cedo se viria a saber, mas até lá…

 

Isso deixava Alexandre profundamente irritado, e quando assim era, não compactuava com eles em divagações e em meras probabilidades.

 

Era no entanto muito respeitado e admirado por todos, e sempre que ele tecia algum comentário, prestavam-lhe a devida atenção.

 

Naquela manhã não lhe apetecia falar na eventualidade de uma guerra. Também ele tinha um filho, assim como a maioria dos que ali se encontravam, por isso recusou pensar na hipótese do seu rapaz ser levado para um campo de batalha.

 

Fazia anos que o destino lhe tinha pregado uma valente partida, levando-lhe a sua doce Maria, quando ela deu a luz o seu primogénito. Daí que nem hipoteticamente ele queria pensar numa repetição do destino.

 

A vida já tinha sido madrasta ao deixa-lo viúvo com um recém-nascido nos braços…

 

Ainda assim e apesar do grande infortúnio, e das suas consequências, no semblante de Alexandre nunca se avistou uma nuvem de revolta.

 

– Deus sempre sabe o que faz – Era esta a convicção de Alexandre.

 

Mas bastava de sofrimento… até porque a dor da saudade tinha feito morada no seu peito. O seu olhar sereno era um misto de dor, resignação, fé e esperança.

 

Esperança essa que ele não iria deixar desvanecer pelos rumores de uma guerra.

 

André era o seu orgulho e a razão da sua existência!

 

Foi ele a alavanca que Deus usou para o erguer no meio de tanto sofrimento.

 

Há quem diga que a tribulação amansa ou embravece o coração.

 

No caso de Alexandre, ela não só amansou com também adocicou.

 

Esta era a opinião dos seus amigos e vizinhos.

 

O dia em que tudo aconteceu ainda estava bem presente na sua memória…

 

– Complicações Sr. Alexandre… – anunciou a parteira banhada em suor e lágrimas.

 

Pobre mulher… fez o que pode mas… a Deus aprouve leva-la.

 

Não existe nenhum antídoto para atenuar a dor causada por uma da tragédia, tenha ela um culpado ou não, e neste caso não tinha.

 

A serenidade que transparecia hoje do seu olhar era pois fruto das muitas vicissitudes sofridas ao longo da vida.

 

Não é fácil ser-se pai, muito menos pai e mãe ao mesmo tempo.

 

Claro que a mão de Deus esteve presente para lhe dar graça e a sabedoria, ajudando-o assim a ultrapassar os obstáculos do dia-a-dia.

 

Os seus pensamentos foram despertos pela entrada abrupta de André no café. Vinha completamente ofegante por tanto correr.

 

– De certeza que houve problemas na quinta – pensou Alexandre – para que André se tenha aventurado a vir aqui com este frio.

 

E assim era… o cavalo branco tinha desaparecido.

 

– Pai… o cavalo desapareceu – balbuciou André completamente exausto.

 

– Desapareceu como? A porta do estábulo não estava fechada? – Questionou Alexandre.

 

– Pois estava, mas ele não está lá – os olhos de André reflectiam bem a imagem da preocupação.

 

O cavalo branco era o que de maior valor patrimonial possuíam.

 

Por ele a sua fama correu por todos o país. Nunca até então ninguém vira um animal mais belo que aquele, e agora tinha desaparecido.

 

– Oh não querem ver que te roubaram o cavalo? – Disse um dos presentes.

 

– Só pode, se a porta estava fechada como disse o André! – Concluiu outro.

 

– Mas que desgraça agora roubarem o teu cavalo branco! – O debate sobre a guerra foi completamente esquecido.

 

O tema central no pequeno café da aldeia passou a ser então o roubo do cavalo.

 

– Calma, meus amigos, tenham calma. Não cheguem a tanto. Simplesmente digam que o cavalo não está mais no estábulo. O resto é julgamento vosso. – Atalhou de imediato Alexandre.

 

Pai e filho despediram-se, saindo dali apressadamente. Os dois vultos embrenharam-se na neve que caía agora com mais intensidade,

 

Atrás deles ficou a agitação do novo acontecimento:

 

O roubo do cavalo branco de Alexandre.

 

Passaram-se vários dias sem que o animal desse algum sinal de vida. Alexandre e André, o seu rapaz, prosseguiam com a sua vida rotineira.

 

O trabalho da quinta não era leve, apesar de esta ser pequena, mas a única mão-de-obra existente era a de ambos e nada mais.

 

André não tocou mais no assunto, até porque o seu pai já andava cansado de ouvir os constantes comentários que se faziam na aldeia.

 

Ele tinha uma profunda admiração pela forma como o pai lidava com aquela situação. Sendo o cavalo uma perda tão avultada ele confiava tudo nas mãos de Deus e esperava tranquilo.

 

Era sempre assim, às vezes essa mesma tranquilidade mediante as mais duras provas chegavam a arreliar André. Mas no fim ficava provado que era o pai que estava certo.

 

Deus nunca os deixara ficar mal até aquele dia, e agora não iria ser diferente.

 

– Deus sabe o que faz meu filho, e se Ele permitiu que o cavalo se fosse embora, lá terá os seus motivos.

 

– Não vejo quais meu pai – foi a única coisa que André se atreveu a dizer no dia a seguir ao sumiço do animal. Depois disso nenhum dos dois tocou no assunto.

 

Cada qual à sua maneira entregou o problema no altar de Deus e esperou.

 

Mediante a calma que Alexandre demonstrava, os vizinhos, começaram a fazer troça.

 

– Passados já estes dias, tu ainda esperas o cavalo? – Perguntou-lhe um deles com ironia.

 

– Oh homem, o animal nunca mais vai aparecer… – Ironizou outro.

 

– Veremos meus amigos, veremos. – Era a resposta branda de Alexandre às ironias vizinhas.

 

O tempo foi passando, até que ao fim de duas semanas e contra todas as previsões da aldeia, o animal apareceu na quinta.

 

O cavalo tinha fugido para a floresta. Mas agora não regressava sozinho, trazia com ele doze cavalos selvagens.

 

E que belos cavalos selvagens aqueles!

 

A notícia espalhou-se como moinha ao vento, originando uma grande animação na aldeia.

 

Vizinhos e amigos apresentaram-se então de imediato na quinta, não só para os felicitar mas também para poderem apreciar a beleza dos animais.

 

– Tinhas razão Alexandre, não é que o bicho apareceu mesmo? – Dizia um dos presentes.

 

– Até parece que adivinhavas. Mas que grande fé a tua homem! – Dizia outro enquanto lhe dava leves palmadinhas nas costas em jeito de celebração.

 

– Isto é que é uma bênção, agora em vez de um cavalo tens uma manada! – Atestou outro.

 

– Exactamente, que grande bênção homem! – O comentário era unânime.

 

– E nós que dizíamos que o sumiço do animal tinha sido uma desgraça, vejam lá bem.

 

Dias antes, teciam variadíssimos comentários irónicos à situação de Alexandre, agora comemoravam o recebimento de uma bênção tremenda.

 

– Obrigado, meus amigos – agradeceu Alexandre – mas vocês estão de novo a precipitar-se. Quem poderá afirmar se o facto de o meu cavalo ter voltado com companhia, é ou não uma bênção?

 

Digam apenas que o cavalo está de volta… não estejam sempre a fazer julgamentos.

 

– Oh Alexandre não digas disparates, então não se vê logo que é uma bênção? –

 

– E que bênção, e que bênção. Pará lá com a tua mania das modéstias.

 

É claro que Alexandre estava feliz com a volta do animal, Deus não só ouviu como atendeu às suas orações. Mas a insistência destes homens, em fazer julgamentos precipitados, incomodava-o.

 

Tomé, o seu inseparável amigo aproximou-se dele e segredou-lhe:

 

– Tu já sabes como este povo é, não lhes ligues.

 

Alexandre encolheu os ombros com desalento.

 

Quem ficou completamente eufórico com o regresso do cavalo branco foi André.

 

No dia seguinte levantou-se bem cedo para dar início aos trabalhos.

 

A domesticação dos doze animais selvagens.

 

Tinha uma árdua tarefa pela frente, mas iria valer a pena.

 

Alexandre constatou isso mesmo nos dias seguintes, os progressos eram notáveis.

 

O seu rapaz estava a fazer um belo trabalho.

 

Isso iria reverter num acréscimo patrimonial para ambos!

 

No entanto e contrariando a animação que se vivia na quinta, as notícias que chegavam de longe eram as piores.

 

O País ia mesmo entrar em guerra.

 

– Meus amigos, agora já não falamos em meros boatos ou suposições. É uma realidade e temos de a encarar de frente – Disse Tomé.

 

– Falas bem porque não tens filhos – argumentou com agressividade um dos homens. Estavam todos extremamente pesarosos e tendo em conta isso mesmo, Tomé não se ofendeu.

 

– Não é bem assim… – Limitou-se a responder.

 

É verdade que ele não tinha constituído família. Comentava-se em surdina que o medo o levou a casar-se com o café. Não quis correr o risco de ser atropelado pelo destino, como o foi Alexandre, o seu amigo.

 

A morte prematura de Maria e o sofrimento que a mesmo causou traumatizou Tomé.

 

Mas a verdade é que ele amava André como a um filho.

 

Ele não era só seu afilhado…não. Aquela criança foi o elo de ligação que Maria lhes deixou antes de partir. A ele e a Alexandre.

 

O rapaz não teve um pai e uma mãe como é supostamente normal, mas em contrapartida teve ao seu lado dois homens que desempenharam com destreza o papel de pais.

 

Capazes de dar a vida por ele, se preciso fossem.

 

Daí a notícia o abalar tanto como a qualquer pai de família que ali se encontrava.

 

– É verdade, o tempo dos rumores já lá vai. – Concluiu Alexandre.

 

– Dizem que todos os rapazes da aldeia terão de se alistar. Têm que ir defender a pátria – disse com profundo pesar um dos fregueses.

 

– Vamos ficar sem os nossos rapazes, é o que é… – o desânimo era total.

 

– E agora meus amigos, como vamos nós levar esta notícia para casa? – A pergunta que vinha do balcão era pertinente.

 

– Valha-nos Deus… – Suspirou um deles.

 

As informações chegavam primeiramente ao café, onde eram analisadas e debatidas e só depois levadas à população.

 

Eles faziam o trabalho de pombo-correio, uma tarefa que lhes dava imensa satisfação, mas esta… era demasiado dolorosa.

 

Todas as famílias iriam ser afectadas.

 

-Queres que te acompanhe a casa para dar a notícia ao rapaz? – Perguntou-lhe Tomé.

 

– Agradeço-te, mas não há necessidade – o semblante de Alexandre estava carregado de lembranças – Logo agora que ele anda tão entusiasmado com os cavalos… – Mas não era essa a razão do seu pesar.

 

Foi com um suspiro que as dores da memória se ergueram e dirigiram para casa.

 

Nunca o caminho até a quinta lhe pareceu tão longo.

 

No trajecto ensaiava vários discursos, na tentativa de aligeirar a notícia o mais possível. Mas conseguiria ele transmitir a mesma sem destroçar o coração do filho?

 

Uma má notícia causa sempre sofrimento, isso é inevitável e ele sabia-o.

 

Era mais um duro golpe do destino nas suas vidas.

 

O ar encontrava-se gélido naquela tarde, e o vento soprava com demasiada força.

 

Estes dois elementos da natureza foram os companheiros dos seus pensamentos.

 

Chegou por fim à quinta.

 

Na frente da casa a pequena palmeira que André plantara na Primavera anterior, debatia-se com o vento. Era um arbusto ainda jovem mas lutava com bravura.

 

Sacudida violentamente por ele torcia-se e contorcia-se mas… mantinha-se firme no seu lugar.

 

Alexandre parou a contemplar aquele cenário. Aquela frágil palmeira transmitiu-lhe uma forte mensagem. Acabava de receber o alento necessário para enfrentar aquele momento.

 

– Obrigado. – Disse de coração agradecido e de olhos postos no céu.

 

Com a passada firme, dirigiu-se para o interior da sua casa e chamou pelo filho. Aguardou alguns segundos, mas não obteve qualquer resposta.

 

Com aquela ventania era impensável que o rapaz não estivesse em casa.

 

Ergueu um pouco o tom de voz e voltou a chamar:

 

– André… onde estás? – Só o silêncio lhe respondeu.                              

 

Visivelmente arreliado, dirigiu-se até ao estábulo.

 

– Que irresponsabilidade da sua parte sair de casa com este tempo – pensava Alexandre.

 

Faltavam poucos metros para chegar ao estábulo, quando ouviu um gemido.

 

– André, André – chamou ao percorrer apressado a pouca distância que os separava.

 

– Pai… pai! – Havia dor na sua voz.

 

Alexandre abriu violentamente o portão.

 

A sua frente, deitado no chão, o rapaz contorcia-se com dores.

 

– O que aconteceu rapaz? – Perguntou-lhe aflito.

 

– Como estava frio, resolvi fazer o treino dos cavalos aqui, e o pardo… lançou-me ao chão… – Relatou com dificuldade ao mesmo tempo que do seu rosto corriam gotas de suor. Estava cheio de dores.

 

– Tem calma André e não te mexas, enquanto vou buscar ajuda. – Alexandre não tinha grandes conhecimentos médicos, mas a avaliar pela posição do rapaz, as suas pernas não se encontravam em muito bom estado.

 

– Desculpe pai… – disse André com a voz trémula.

 

– Vou chamar o Dr. Mauro, e tu fica quieto, e não te mexas.

 

Prendeu o cavalo pardo e foi chamar o médico.

 

Não tardaram muito em chegar, embora a André lhe tenha parecido uma eternidade.

 

O médico avaliou com cuidado o seu estado.

 

O diagnóstico, tal como o pai previra, não foi bom.

 

– Lamento meu rapaz, mas tens as duas pernas fracturadas. – Concluiu ele.

 

– Lindo serviço André! – O tom da voz paterna denotava preocupação, mas não denunciava que estivesse zangado.

 

Isso aliviou um pouco a dor emocional de André.

 

– Vais ter uns valentes dias de repouso, e os teus cavalinhos vão ter que esperar.

 

– Repouso absoluto? – Perguntou André entre gemidos.

 

– Claro! Achas que consegues fazer alguma coisa nesse estado?

 

André limitou-se a acenar que não com a cabeça.

 

O seu projecto com os cavalos teria que ser adiado.

 

– Quanto tempo é que vou ter de ficar em repouso absoluto?

 

– Bem se não houver complicações entre 2 a 3 meses, mas depois terás de fazer fisioterapia durante um bom tempo.

 

– Tanto assim? – Questionou Alexandre.

 

– Isto se não houver mais que uma fractura nos ossos de ambas as pernas… – disse ao mesmo tempo que lhe administrava uma injecção de «cavalo» para aliviar um pouco as dores.

 

Alexandre soltou um sonoro suspirou de alivio, deixando o Dr. Mauro intrigado.

 

– Esperavas um diagnóstico pior? – Perguntou ao mesmo tempo que franzia as suas fartas sobrancelhas.

 

– Não, não esperava. Mas este acidente vai impedir que André tenha de se alistar para Guerra – esclareceu ele.

 

– É verdade. Tens toda a razão em suspirar de alívio – concordou o médico – Até o André o fará logo que as dores o larguem um pouco.

 

Assim que o analgésico começou a fazer efeito, André foi imobilizado, para que os dois homens o pudessem levar para o hospital na vila mais próxima.

 

Depois de feitas as radiografias e já no seu quarto foi confrontado com o diagnóstico final.

 

– As minhas suspeitas confirmam-se – começou por dizer o Dr. Mauro, com os olhares de pai e filho cravados nele – há na perna esquerda a fractura do fémur, mas na direita o estrago é maior. A tíbia esta fracturada em dois sítios…

 

O médico ia analisando por cima dos óculos, o impacto que a notícia causava nos dois.

 

– Isso trocado em miúdos quer dizer o quê doutor? – Perguntou Alexandre.

 

– Bem… quer dizer que a recuperação vai ser lenta e terá de haver da tua parte – dirigia-se agora para André – muita paciência e cooperação.

 

– Quais são as suas previsões doutor até a minha recuperação total? – Perguntou André com um profundo suspiro.

 

– Talvez 1 ano, ou talvez menos. Depende de como a cicatrização corre e do teu empenho na fisioterapia.

 

– Vê o lado bom das coisas rapaz – disse-lhe o pai por fim – ficarás livre da guerra por um bom tempo.

 

Na realidade e dada a imaturidade própria da juventude, era Alexandre quem mais valorizava este “lado bom” do acontecimento.

 

– Que bom pai … – Respondeu-lhe desanimado.

 

– Sr. André vamos dar um passeio até ao bloco operatório? – O enfermeiro Gomes tinha um ar simpático e descontraído. Foi com grande a vontade que entabulou conversa com o novo paciente, e o levou para fora do quarto.

 

Era um profissional competente que demonstrava amar o seu ofício.

 

(continua)…..

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…..

 

Alexandre soltou um suspiro ao ver o filho afastar-se.

 

– Há males que vêem por bem e este parece-me um deles. – Disse o Dr. Mauro – E tu vê se ficas tranquilo – colocava-lhe agora a mão de amigo no ombro – porque o rapaz está em boas mãos. 

 

Alexandre esboçou um leve sorriso em sinal de concordância.

 

– Tenta descansar um pouco, que não tardará nada a ele estar de volta – Recomendou o médico ao retirar-se.

 

– Não vou conseguir descansar, mas obrigado doutor.

 

Aquela tarde tinha sido desgastante, principalmente do ponto de vista emocional.

 

Primeiro a notícia que o país entrara em Guerra.

 

Depois as recordações que a mesma trouxe, devido à obrigatoriedade do alistamento dos rapazes.

 

E como se isso ainda não bastasse, o acidente do filho com intervenção cirúrgica e tudo. Sentia-se mesmo cansado quando se afundou no cadeirão da sala de espera.

 

– Eu sei que o meu filho está em boas mãos. – Pensava Alexandre em voz alta – Porque está nas mãos de Deus.

 

 Como bom aldeão que era, o Dr. Mauro tratou logo de espalhar a notícia do sucedido por toda a aldeia.

 

Um a um todos foram comparecendo na quinta, para prestar solidariedade e colocarem-se ao dispor para o que fosse eventualmente necessário.

 

– Outra desgraça te bateu à porta Alexandre. Oh valha-me Deus.

 

– Bem dizias tu, que não devíamos afirmar que a volta do cavalo branco era uma bênção.

 

– Pobre rapaz, logo as duas pernas. É preciso ter azar! – Opinavam eles.

 

O cansaço de Alexandre era bem visível… acabava de chegar do Hospital e não tinha pregado o olho toda a noite.

 

Ficou a velar o sono do filho, como quando ele era pequeno.

 

A informação que lhe deram da cirurgia, foi a melhor possível, mas mesmo assim ele não arredou pé dali.

 

Estava pois exausto quando na manhã seguinte regressou a casa e aquela insistência dos amigos em fazer julgamentos estava a tirar-lhe a paciência.

 

A ele que era extremamente calmo…

 

– E vocês insistem em fazer julgamentos. Parem lá com isso homens de Deus. Os acidentes acontecem todos os dias, não são desgraça e sim percalços da vida.

 

– Como não Alexandre? Foram logo as duas pernas.

 

– Eu sei… Mas a situação até podia ser bem pior se ele ao cair tivesse batido com a cabeça ou não?

 

– Podia estar morto a esta hora – concluiu um deles com visível pesar.

 

– Pois… lá isso podia – disse outro ao mesmo tempo que coçava a cabeça.

 

– Então parem lá com os julgamentos meus amigos! Deus sabe o que faz e se ele permitiu que esta queda acontecesse lá terá as suas razões. Eu já vos disse que aqueles que são obcecados por julgar, facilmente caiem na armadilha de basear os seus julgamentos por pequenos acontecimentos. O que os leva a conclusões precipitadas.

 

Nunca encerrem uma questão de forma definitiva. Quando um caminho termina, Deus começa outro, e quando uma porta se fecha, Deus sempre abre outra, lembrem-se disso…

 

– Será que tu nunca questionas Deus, Alexandre? Concordas sempre com o que Ele faz? – A sua passividade perante os problemas, arreliava os demais.

 

– Claro que questiono – respondeu ele – e nem sempre concordo com os Seus métodos, mas quem sou eu para saber o que é melhor ou pior para mim?

 

– Acaso deve a criatura interpelar ao Criador? – O silêncio instalou-se na sala.

 

Que argumentos poderiam usar eles para contra atacar esta grande verdade?

 

Nenhuns obviamente, todos ali tinham conhecimento da Soberania de Deus.

 

Bem… lá ter até tinham mas as vezes… esqueciam-se!

 

Os dias que se seguiram ao acidente foram de grande angústia para toda a aldeia.

 

No hospital André exasperava-se, não só pelas dores, mas porque se encontrava totalmente imobilizado. O facto de estar deitado sempre na mesma posição mexia-lhe com o sistema nervoso. Foram 10 dias no Hospital difíceis de suportar.

 

Na aldeia os rapazes com mais de 18 anos foram obrigados a partir para a guerra.

 

O ambiente que pairava era de grande pesar e consternação.

 

Ao fim de três meses André iniciou os tratamentos de fisioterapia em ambas as pernas.

 

Para fisioterapeuta o Dr. Mauro elegeu Tomé, o seu padrinho.

 

Esta nova responsabilidade obrigava-o a fechar o café todas as tardes, mas ele não se importava.

 

Bem pelo contrário, assim os homens não iam para lá afogar as suas mágoas.

 

É que aturar bêbados nunca fora o seu forte, ainda para mais agora que a alegria se tinha apagado no rosto da população…

 

Com os ânimos abatidos, não havia disposição para conversas nem debates.

 

Era sozinho e num silêncio solene que Tomé afixava as notícias que os pombos-correios se recusavam a levar. A lista dos mortos na Guerra.

 

Um a um, todos os rapazes morreram deixando a aldeia sem juventude.

 

O rigor do Inverno e a inaptidão em lidar com armas de Guerra foram fatais.

 

O luto parecia ter feito morada por aquelas paragens. Por todo o lado se chorava a perda de filhos, sobrinhos, netos, primos, amigos…

 

– Maldita guerra que nos levou os filhos todos… – era o grito dos corações amargurados.

 

Injustas ou não, as leis decretavam que eles tinham de contribuir com o que de mais valioso possuíam, os seus rapazes.

 

Alexandre foi o único que não chorou a morte do seu filho… mas sofria com a população. Sendo a aldeia tão pequena era impossível não se ganhar laços de afecto pelos habitantes. Ali todos se conheciam, estimavam e respeitavam, tal como uma grande família.

 

As recomendações do médico foram respeitadas ao milímetro, até porque Tomé estava empenhado na rápida recuperação do rapaz.

 

Era no entanto necessário anima-lo. Assim e durante os tratamentos ele inventava mil e uma história na tentativa de lhe arrancar um sorriso mas… sem sucesso.

 

André perdeu em pouco mais de três meses, todos os seus amigos e a lembrança que tinha deles não lhe permitia sorrir.

 

– Ele tem perguntado pelos cavalos? – Questionou certo dia Tomé.

 

– Não. Nem toca no assunto. – Respondeu Alexandre.

 

– Que raios… a vida continua, o rapaz tem que reagir.

 

– Tem calma meu amigo… ele precisa de tempo digerir a sua dor.

 

– Quem sabe se com a chegada agora da Primavera ele não arrebita? – Disse com ar esperançado.

 

– Quem sabe, Tomé, quem sabe – suspirou Alexandre.

 

Aquela nuvem negra que pairava sobre a aldeia tinha de se dissipar algum dia, e todos desejavam que fosse em breve.

 

– Não está mal não senhor. Agora que o pior já passou posso confessar-te que receei o pior. – Disse o médico.

 

– O pior? – Perguntou André com o olhar arregalado.

 

– Sim. O tipo de fracturas levavam-me a crer que ficarias coxo da perna direita para o resto da vida, mas vejo agora que estava enganado.

 

– Mas ele ainda coxeia Doutor – disse o pai.

 

– Eu sei mas verás que lá para o final do Verão isso deixará de acontecer.

 

– Ufa já não era sem tempo… não vejo a hora de largar de vez esta muleta – disse Abel fazendo-lhe uma careta.

 

– Olha que ingrato me saíste, a desprezares assim a tua amiga… – disse Tomé em defesa do objecto.

 

A gargalhada foi geral, o pior tinha realmente passado.

 

Uma etapa estava ultrapassada, eis que uma nova iniciava. Era urgente arranca-lo da tristeza em que mergulhara no último ano.

 

– Agora que já tens alta médica, não queres ir visitar os cavalos? – Este convite do pai, deixou todos em suspenso.

 

O brilho que por momentos se viu nos olhos do rapaz apagou-se o que fez recear o pior.

 

Permaneceu calado por alguns minutos, causando uma arritmia nos corações presentes.

 

Com um encolher dos ombros e um suspiro respondeu:

 

– Pode ser…

 

Os três homens respiraram de alívio.

 

Mais um passo fora dado em direcção à luz.

 

– Então de que é que estamos a espera? – Perguntou o médico – eu também quero ir ver os bicharocos.

 

No decorrer daquele Inverno os dois homens prepararam-lhe uma surpresa.

 

Construíram um enorme cercado, onde ele iria, logo que pudesses, treinar os cavalos.

 

E era lá que os animais se encontravam quando os quatro se dirigiram para o exterior da casa.

 

O dia tinha amanhecido com um bonito céu azul onde não se vislumbrava uma única nuvem. A luz do sol brilhava por isso sem impedimentos.

 

E essa luminosidade acentuava ainda mais as cores do campo verdejante.

 

Segurando ainda a sua muleta André deu os primeiros passos em direcção ao estábulo. Mas ao erguer os olhos para o horizonte perguntou:

 

– O que é aquilo? – Apontava em direcção ao cercado.

 

– É uma surpresa. – Há meses que ambos ansiavam por aquele dia.

 

– Agora entendo as vossas conversas em surdina – disse o rapaz com um sorriso que ia de orelha a orelha. – Era isto que me escondiam não era?

 

– Pois era – Tomé não cabia em si de contente por ver a alegria do afilhado.

 

– Aleluia! – Exclamou Alexandre – até que enfim que te vejo sorrir filho!

 

– Uau! … É enorme pai – os seus olhos pareciam explodir de felicidade.

 

Os cavalos encontravam-se afastados a pastar, mas ao som das vozes amigas aproximaram-se.

 

A manada vinha completa mas era o cavalo branco que a liderava.

 

Os três homens aperceberam-se da reacção e mantiveram-se ligeiramente afastados. Era um momento importante para André e os animais e eles sabiam-no.

 

Nada nem ninguém deveria atrapalhar aquele reencontro.

 

André afastou-se deles, aproximou-se da cerca e ao debruçar-se nela, largou a muleta.

 

– Estão magníficos – disse num fio de voz.

 

A manada parou a uns 50mt de dele. O cavalo branco soltou um relincho e do meio do grupo salientou-se o cavalo pardo, aquele que o lançara violentamente ao chão.

 

Dirigia-se agora para o local onde André estava debruçado, enquanto os restantes permaneciam parados.

 

Havia um assunto a ser resolvido entre o rapaz e o animal e os restantes companheiros sabiam disso. Iniciou-se o frente a frente.

 

O silêncio era total, a natureza aguardava ansiosa, o desfecho daquele acerto de contas.

 

O cavalo começou por bater com o casco dianteiro no chão, fazendo com que o pó se ergue-se no ar.

 

Ao mesmo tempo relinchava e sacudia a cabeça de um lado para o outro.

 

André permanecia imóvel enquanto o observava.

 

A atitude do animal foi entendida por todos como um pedido de desculpas.

 

Mas o rapaz não reagia. Resolvido, o animal deu mais um passo em frente, ficando bem próximo do rosto de André.

 

Balançava cabeça de um lado para o outro, enquanto aguardava a resposta do amigo. Com estes movimentos suaves parecia que marcava os compassos de uma música.

 

Era com os olhares fixos e em silêncio que tudo se resolvia.

 

– Está tudo bem pardo – declarou André ao fim de um tempo – está tudo bem.

 

Ao afaga-lo ternamente, o cavalo colocou a cabeça no seu ombro.

 

Era o abraço da reconciliação.

 

O líder da manada ergueu-se então nas patas traseiras e começou a soltar fortes relinchos. Tinha chegado a hora dos restantes animais irem cumprimentar André.

 

– Tiveram saudades minhas, não tiveram meus malandrecos? – Perguntava-lhes André bastante emocionado.

 

Nenhum dos homens conseguiu reter as lágrimas diante da ternura que presenciaram.

 

– Isto até parece a cena de um filme – Disse o médico – Inacreditável!

 

– Os filmes são baseados em factos reais doutor – disse Tomé com ar de troça.

 

– É verdade, mas eu não acreditaria que tal fosse possível, se não visse. – E o doutor tinha razão.

 

A afectividade que existia entre o rapaz e os animais foi ali demonstrada de forma inequívoca … e isto não acontece todos os dias. 

 

O ar que se respirava no cercado, estava agora repleto de encanto e ternura.

 

E aquele abraço iria ficar gravado nas suas memórias para sempre.

 

– Que tal uma montada para celebrar? – Perguntou Tomé ao mesmo tempo que limpava o rosto.

 

– O pardo não está apto ainda para montadas padrinho – disse André com a voz ainda embargada – Só se for no cavalo branco…

 

– Mas tem que ser mesmo no líder da manada. Não nos podemos esquecer que o cavalo branco é o grande protagonista desta história – A gargalhada foi geral.

 

E que história pensou Alexandre de si para si.

 

Enquanto os dois homens ajudavam André a selar o animal, Alexandre recordou a sequência de todos os acontecimentos.

 

Tudo se iniciou numa manhã fria de Outono, quando no café do seu amigo se debatiam os rumores de uma entrada do País em guerra.

 

Os mesmos foram esquecidos, quando o sumiço do animal invadiu o espaço.

 

Dias depois e contra todas as previsões o animal regressou escoltado por doze belos animais selvagens.

 

André ficou tão entusiasmado que mal dormiu nessa noite.

 

Semanas depois, e no mesmo dia, veio a confirmação de que o País entrava em guerra e o acidente.

 

Os meses que se seguiram foram terrivelmente dolorosos e marcantes para todos.

 

Dos quatro cantos da aldeia soavam os corações em luto.

 

Nos olhares do povo habitava uma profunda tristeza e no peito morava a dor imensa da saudade.

 

Ao mesmo tempo que decorria a primeira etapa da recuperação de André, chegavam à Estação de Caminho de Ferro, os corpos de todos os seus amigos.

 

Alexandre contraía os músculos faciais ao recordar aqueles dias.

 

O desgaste emocional foi tão grande que levou André mergulhar numa profunda tristeza.

 

Mas hoje voltou a sorrir.

 

O relinchar do cavalo branco despertou Alexandre das lembranças… estava pronto para a montada.

 

Era agora preciso, ajudarem o rapaz a subir para o seu dorso. André ainda se encontrava com poucas forças nas pernas, mas amparado pelo padrinho, rapidamente ocupou o seu lugar na sela.

 

Envolvido pela doce fragrância da felicidade André deu início ao passeio.

 

Tomé permaneceu na cerca a conversar com o Dr. Mauro. Contava-lhe que devido ao acidente do afilhado, descobriu a sua verdadeira vocação.

 

– Assim que a guerra termine vou inscrever-me numa boa escola e tirar o curso de Fisioterapeuta. – Disse com convicção.

 

O Dr. Mauro ficou encantado com a ideia, e dispôs-se a ajuda-lo no que fosse preciso.

 

Ao mesmo tempo que os ouvia, bailava na mente de Alexandre aquele versículo: “Esperei com paciência no Senhor, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor”.

 

Sorria enquanto saboreava cada palavra …

 

Os ventos que tempos atrás ditaram a entrada do país em guerra, anunciavam já a alguns dias que a mesma se aproximava do fim.

 

Ele aguardava pacientemente que a mesma se confirmasse.

 

Ao longe e a galope no seu cavalo branco, André expulsava os medos e as dores que o atormentaram durante os últimos meses.

 

Ao mesmo tempo, no céu um enorme bando ondulante de aves agitava-se em direcção à sua quinta…

 

Em animados voos picados, aquelas pequenas aves vinham anunciar a toda a aldeia a chegada de uma nova estação….

 

Florbela Ribeiro A. S.

02/07/08