Category: Poemas


O segredo

 
O segredo
 
Aprisionei a liberdade

 

num inefável canto do meu ser.
 
Manietei-a inconscientemente.
Condicionei-a às formalidades
orquestradas por um ego oculto
manchado de hipocrisia.
Um pouco de tempo
sussurra-me o vento –  

um pouco mais de tempo
 

e a liberdade soltará


as amarras de silêncio
 
para voar a galope

rumo às bem aventuranças.

 

Florbela Ribeiro®

 

MÃE

Feliz Dia da Mãe

 

MÃE

Ternura amiga
Por Deus elegida
Dom que revela
O amor
E a vida.

Reflexo de beleza
E de encanto
Voz melodia
Que afasta o medo
E enxuga o pranto

Sabedoria
Em assento de paz
Mansidão
A carícia de veludo
No odor da sua mão

Mãe
Sinfonia
Que perdura
Para além
Da emoção


Florbela Ribeiro®

O CHAFARIZ

 
O CHAFARIZ

Conheço de cor o caminho
Deste antiquus chafariz de prazer
O ler
E o escrever
Adoro palmilhar as letras
Cirandar palavras
Retorcer frases
Pespontar os pontos
Deambular nas reticências
Contornar as vírgulas
E bordar contos.


Florbela Ribeiro®

 
 
Topadas da vida
 
 
 
A vida é composta

Por malogros nas

Topadas

Tantos sonhos

Ideais

Com desvios

Miragens

Detalhes

E instantes

Cruciais

No registo da história

Feita com fluídos

Lacrimais.

Florbela Ribeiro®

 

Nunca vi um campo de urzes

 
Nunca vi um campo de urzes

Nunca vi um campo de urzes,
Nunca vi o mar;
Mas sei como as urzes são
E posso as ondas imaginar.

Nunca estive no céu
Nem vi Deus. Todavia
Conheço o sítio como se
Tivesse em mãos um guia.

Emily Dickinson

Tradução
Manuel Bandeira

PERCEBI

 

 

PERCEBI

 

Percebi que sinto falta de mim
É um sentimento estranho
Que me assalta nas imagens

Espelhadas de emoções

 

Admito com honestidade

Esta grande verdade

Mas como inverter a situação?

Responsável pelo que faço
Não faço

Ou impeço de fazer
Olho ao redor

 

A vida estagnada
Sobrevive à deriva

Aguarda um sinal no horizonte
Uma embarcação que passe

Que a resgate

E a conduza noutra direcção

Seja como for

O tempo esgota-se
O futuro apressa-se
em chegar
Trazendo com ele expectativas possíveis

Ou inimagináveis

É inevitável

Mas cabe-me a mim

A decisão de mergulhar ou não

Nesse mar de vagas repentinas e nadar

Nadar até ao rumo certo
Até ao porto seguro

Para encontrar a minha essência

Sem miragens
Na certeza de que onde eu estiver,

TU estarás também.

 

Florbela Ribeiro®

Proveniências

 
Proveniências

A dor e a agonia não provêm
Do peso excessivo da cruz
Nem dos seixos irregulares
Que embaraçam a passagem
Nem da poeira
Invasora dos cinco sentidos
Nem da coroa de espinhos
Violentamente
Engastada na memória.
Nem do escárnio
Nem do ágil chicote
Que dilacera a carne
Dos membros entorpecidos
A dor e a agonia provêm
Dos corações empedernidos
E dos olhares incréus
Do mundo hostil.

Florbela Ribeiro®

DIA MUNDIAL DA POESIA

 
"A Viagem"

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga

PAI

Pai
Eu preciso tanto de ti
Eu preciso sentir a cada dia
A força e a coragem
Que emana da nobreza do teu carácter
Eu preciso sentir
A sábia envolvência da tua voz
Os teus conselhos
A chave mestra
Com a qual me abres
O entendimento
E a visão
Para a realidade de um mundo
Sem artifícios.
Pai
Eu preciso tanto de ti
Do refúgio do teu colo
Do teu abraço que afugenta de mim
Tanto as mágoas como os medos
Pai
Eu preciso da ternura balsâmica
Que vertes sobre meus cabelos
Esse gotejar constante de afagos
Que me cura as feridas
E atenua as marcas
Que vida impiedosa me faz ao passar
Pai
Eu preciso tanto mas tanto de ti

Florbela Ribeiro®

Em antecipação ao DIA DO PAI, aqui fica a minha singela homenagem.

Carta à minha Mãe

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Carta à minha Mãe

Mãe, hoje regozijo-me
no teu eterno abraço.
Hoje limparei todas as tuas lágrimas.
Hoje, em ti tenho toda a minha alegria.

Mãe, em que dores me deste a vida!
E tantas as vezes que da tua por mim
abnegaste!

Mãe hoje sou eu que ao colo te pego,
como tantas vezes me acarinhaste.
E tantas vezes a vida para ti foi injusta!
Perdeste quem tanto amavas,
e tantas lágrimas derramastes!
Mas hoje não, não mais irás
sofrer!

Hoje sou eu que em ti afago o peito!
Hoje sou eu que te beijo, em grato carinho!
Hoje sou eu que quero tuas penas carregar!

Um dia irás partir…
Os anjos te esperam,
como os invejo!

Mãe hoje sou eu que quero a vida te dar!
Para que de mim nunca saías
Mãe hoje sou eu que te peço
que nunca partas!

Dulce Antunes