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Topadas da vida

 
 
Topadas da vida
 
 
 
A vida é composta

Por malogros nas

Topadas

Tantos sonhos

Ideais

Com desvios

Miragens

Detalhes

E instantes

Cruciais

No registo da história

Feita com fluídos

Lacrimais.

Florbela Ribeiro®

 

Nunca vi um campo de urzes

 
Nunca vi um campo de urzes

Nunca vi um campo de urzes,
Nunca vi o mar;
Mas sei como as urzes são
E posso as ondas imaginar.

Nunca estive no céu
Nem vi Deus. Todavia
Conheço o sítio como se
Tivesse em mãos um guia.

Emily Dickinson

Tradução
Manuel Bandeira

PERCEBI

 

 

PERCEBI

 

Percebi que sinto falta de mim
É um sentimento estranho
Que me assalta nas imagens

Espelhadas de emoções

 

Admito com honestidade

Esta grande verdade

Mas como inverter a situação?

Responsável pelo que faço
Não faço

Ou impeço de fazer
Olho ao redor

 

A vida estagnada
Sobrevive à deriva

Aguarda um sinal no horizonte
Uma embarcação que passe

Que a resgate

E a conduza noutra direcção

Seja como for

O tempo esgota-se
O futuro apressa-se
em chegar
Trazendo com ele expectativas possíveis

Ou inimagináveis

É inevitável

Mas cabe-me a mim

A decisão de mergulhar ou não

Nesse mar de vagas repentinas e nadar

Nadar até ao rumo certo
Até ao porto seguro

Para encontrar a minha essência

Sem miragens
Na certeza de que onde eu estiver,

TU estarás também.

 

Florbela Ribeiro®

SANTA PÁSCOA

Flor®

 
Proveniências

A dor e a agonia não provêm
Do peso excessivo da cruz
Nem dos seixos irregulares
Que embaraçam a passagem
Nem da poeira
Invasora dos cinco sentidos
Nem da coroa de espinhos
Violentamente
Engastada na memória.
Nem do escárnio
Nem do ágil chicote
Que dilacera a carne
Dos membros entorpecidos
A dor e a agonia provêm
Dos corações empedernidos
E dos olhares incréus
Do mundo hostil.

Florbela Ribeiro®

O Pai Perdoa

 
O Pai Perdoa


Escuta-me filho: estás deitado, dormes com uma mãozinha enfiada debaixo do rosto.
Os cachos do teu cabelo pendem-te sobre a fronte. Entrei sozinho e sorrateiramente no teu quarto.
Há poucos minutos, enquanto eu estava sentado, a ler o jornal na biblioteca, fui assaltado por uma onda sufocante de remorsos.
E ao sentir-me culpado vim até aqui para ficar ao lado da tua cama.
Andei a pensar em algumas situações, filho… e verifiquei que tenho sido intransigente contigo.
Hoje mesmo quando te preparavas para ir para à escola, ralhei contigo por não teres enxugado o rosto devidamente com a toalha.
Chamei-te a atenção por não teres limpo os sapatos.
Gritei furioso contigo por teres alguns dos teus pertences no chão.
Durante o pequeno-almoço impliquei com algumas coisas:
Derramaste cereais na mesa.
Não mastigaste bem a comida.
Colocaste os cotovelos sobre a mesa.
Exageraste na manteiga quando preparavas o pão para o lanche.
Começaste a brincar quando eu saía para o trabalho… viraste-te acenaste e disseste-me:
"Até logo paizinho!" – eu franzi o sobrolho e como resposta disse-te:
"Endireita-me esses ombros!"
À tarde não fui diferente.
Voltei e, quando me aproximei de casa, vi-te ajoelhado a jogar com os berlindes.
Tinhas as meias rasgadas e eu humilhei-te diante dos teus amiguinhos, fazendo-te entrar à minha frente em casa.
– As meias são caras, se fosses tu a comprá-las tomarias mais cuidado.
Um pai dizer isto!
Mais tarde, quando lia na biblioteca, tu procuraste-me timidamente com a mágoa impressa nos teus olhos.
Quando afastei o olhar do jornal, irritado com a interrupção, tu paraste à porta:
"O que é que tu queres?", perguntei implacável.
Não disseste nada, correste com ímpeto na minha direção, passaste os teus braços em torno do meu pescoço e beijaste-me;
os teus bracinhos foram se apertando com a afeição pura que Deus fez crescer no teu coração, a mesma que nenhuma indiferença consegue extirpar. Depois retiraste-te, e subiste os degraus da escada a correr.
Bem, meu filho, não passou muito tempo até que os meus dedos afrouxassem, o jornal escorregou por entre eles, e um medo terrível e nauseante tomou conta de mim.
O que o hábito estava a fazer comigo?
O hábito de ficar atento aos teus erros, de fazer reparos e reprimendas – era essa maneira que eu te recompensava por seres uma criança.
Não é que não te ame; o facto é que eu espero demais da juventude.
Eu avalio-te pelos padrões da minha própria vida.
E há tanto de bom, de belo e de verdadeiro no teu carácter.
O teu coraçãozinho é tão grande quanto o sol que entra pela janela.
Mas eu só percebi isto pelo teu gesto espontâneo, quando correste para me dar um beijo de boas noites. Nada mais me importa nesta noite filho.
Entrei na penumbra do teu quarto, e ajoelhei-me ao lado de tua cama, envergonhado!
É uma expiação inútil; se estivesses acordado, não compreenderias estas coisas.
Mas amanhã serei, para ti, um pai de verdade!
Serei teu amigo, sofrerei quando sofreres, rirei quando rires.
Morderei a língua quando as palavras impacientes quiserem sair da minha boca.
Irei dizer e repetir, como se fosse um ritual: "Ele é apenas um menino – o meu menino!"
Receio que te tenha visto como um homem feito.
Mas, olhando-te agora, filho, encolhido e amedrontado no ninho, certifico-me de que és um bebé.
Ainda ontem estavas nos braços da tua mãe, com a cabeça deitada no seu ombro.
Exigi muito de ti.
Exigi muito.

W.Livingston Larned


(Adaptado por Florbela Ribeiro®)

Em vez de condenar os outros, procuremos compreendê-los.
Procuremos descobrir por que fazem o que fazem. Essa atitude é muito mais benéfica e
intrigante de que criticar; e gera simpatia, tolerância e bondade.
"Conhecer tudo é perdoar tudo"
"O próprio Deus, não se propõe julgar o homem até o final de seus dias".
Por que fazemos nós isso?

DIA MUNDIAL DA POESIA

 
"A Viagem"

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga

FELIZ DIA DO PAI

 
Flor®

PAI

Pai
Eu preciso tanto de ti
Eu preciso sentir a cada dia
A força e a coragem
Que emana da nobreza do teu carácter
Eu preciso sentir
A sábia envolvência da tua voz
Os teus conselhos
A chave mestra
Com a qual me abres
O entendimento
E a visão
Para a realidade de um mundo
Sem artifícios.
Pai
Eu preciso tanto de ti
Do refúgio do teu colo
Do teu abraço que afugenta de mim
Tanto as mágoas como os medos
Pai
Eu preciso da ternura balsâmica
Que vertes sobre meus cabelos
Esse gotejar constante de afagos
Que me cura as feridas
E atenua as marcas
Que vida impiedosa me faz ao passar
Pai
Eu preciso tanto mas tanto de ti

Florbela Ribeiro®

Em antecipação ao DIA DO PAI, aqui fica a minha singela homenagem.

Carta à minha Mãe

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Carta à minha Mãe

Mãe, hoje regozijo-me
no teu eterno abraço.
Hoje limparei todas as tuas lágrimas.
Hoje, em ti tenho toda a minha alegria.

Mãe, em que dores me deste a vida!
E tantas as vezes que da tua por mim
abnegaste!

Mãe hoje sou eu que ao colo te pego,
como tantas vezes me acarinhaste.
E tantas vezes a vida para ti foi injusta!
Perdeste quem tanto amavas,
e tantas lágrimas derramastes!
Mas hoje não, não mais irás
sofrer!

Hoje sou eu que em ti afago o peito!
Hoje sou eu que te beijo, em grato carinho!
Hoje sou eu que quero tuas penas carregar!

Um dia irás partir…
Os anjos te esperam,
como os invejo!

Mãe hoje sou eu que quero a vida te dar!
Para que de mim nunca saías
Mãe hoje sou eu que te peço
que nunca partas!

Dulce Antunes